O General

O General

À mesa estavam o comandante do Exército, o comandante da Aeronáutica e o da Marinha, o tenente do cerimonial, o porta-voz do Exército, o General encarregado da equipe de pesquisa, e os chefes das equipes de pesquisadores. Ao lado estava a estenógrafa e a equipe encarregada de registrar em vídeo o que ocorreria naquele auditório.
Nas três primeiras cadeiras, à frente da mesa dos militares, estavam os três convidados, como se estivessem em um tribunal militar em julgamento.
O clima no ambiente não estava leve. Havia entre os convidados, perceptível desconforto diante da situação, quando o tenente do cerimonial, levantou-se e agradeceu a sua presença, explicando o motivo de estarem ali, naquele feriado, esclarecendo que, o que seria tradado era dos fatos mais importantes da república e informando a pauta da reunião, após o que, passou a palavra ao General coordenador dos trabalhos.
– Bom dia senhor Presidente da República, presidente da Câmara dos Deputados e presidente do Senado. O assunto a ser tratado aqui é dos mais importantes, senão o mais importante. O que motivou os estudos de nossas equipes e consequentemente este encontro é a caótica situação por que passa o país, há mais vinte anos sem que se vislumbre nenhum sinal de que a solução possa aparecer em um espaço de tempo de curto a médio prazo. A situação é tão grave que, sob o ponto de vista de nossos pesquisadores, a guerra civil em que se encontra a população do Rio de Janeiro, tende a se alastrar por todo o país. Chegou até nós o clamor da sociedade que não suporta mais assistir, diuturnamente, o que tem acontecido no Executivo, no Legislativo e até no Judiciário. Temos visto manifestação de alguns militares sobre a situação e consideramos que este é o momento de tomarmos medidas severas, objetivando eliminar estes ruídos nos meios de comunicação, ao tempo que passaremos aos senhores cópias das pesquisas realizadas em forma de medidas saneadoras dos problemas que deverão estar concluídas até o último dia do mandato do próximo presidente da República, seja ele quem for.
Não temos absolutamente nenhum projeto de intervenção militar na vida civil da Nação, ao contrário, estamos aqui para orientá-los a tomar as medidas necessárias para uma mudança radical na vida nacional e as Forças Armadas serão as avalistas dessas medidas e acompanharão com rigor suas aplicações, punindo severamente quaisquer desvios que possa ser observado.
– E vocês tem poder para isso? Perguntou o presidente da Câmara dos Deputados.
– Nós temos a baioneta e não vacilaremos usá-la se necessário.
– É uma ameaça? Perguntou o presidente do Senado. – É uma advertência – respondeu o General.
– Não sou obrigado ficar aqui, ouvindo isso! Resmungou o presidente da câmara. O sargento atrás, cochichou aos seus ouvidos: – Seria prudente não se levantar, prestar muita atenção no que será falado. Obrigado! E deu um leve e convincente aperto militar em seu ombro.
– O presidente da República – continuou o General - receberá o primeiro volume contemplando as medidas a ser tomadas, o Presidente da Câmara dos Deputados, dois volumes, sendo um deles o que a Câmara deverá fazer para viabilizar as medidas do Executivo e o Presidente do Senado, três volumes, um deles o que o Senado deverá fazer para viabilizar as medidas tomadas pelos dois primeiros.
Lembramos que nós não temos nada contra os senhores, pois serão os instrumentos de mudanças que a Nação exige. Mas lembramos que essas reuniões também ocorrerão com o Judiciário e temos certeza de que após isso, muita coisa mudará no conceito de impunidade de agentes públicos.
Finalmente, deixamos claro que essa foi a maneira que encontramos para evitar de fato uma intervenção militar, que, sabemos como começa mas não temos a mínima ideia de como e quando terminar.
Passo a palavra ao Porta Voz das Forças Armadas para leitura das instruções contidas nesses volumes, ao tempo que franqueio a palavra aos senhores, no caso de eventual dúvidas que possam ter, e aos componentes da mesa que eventualmente tenham alguma pergunta a fazer aos senhores.
O primeiro a pedir a palavra foi o presidente da República.
– Gostaria de saber por que nossos consultores não estão aqui, nessa tão importante reunião, como alegam os senhores?
– Seus consultores estão participando de outras atividades, e, os senhores não terão necessidade de sua consultoria. Não neste momento, pois o que tem ocorrido no País, sinaliza que a qualidade dela é assaz duvidosa.
– Mais alguma pergunta? Não? Então com a palavra o Porta-Voz.
– Senhores! Antes de iniciar a leitura das metas definidas por esse Alto Comando Militar, devo acrescentar que uma crise é uma fila de pedras de dominó. Quando a primeira cai, em seguida cai todas as outras que estão enfileiradas. E isso ocorre sempre que há abalo da confiança de algum segmento da sociedade civil como agente operador de algum princípio econômico. Essa instabilidade vem desde os dois primeiros governos que antecederam a este e este está procurando consertar os desarranjos da maneira mais errada possível.
A partir deste momento não se admitirá os fatos até ontem acontecidos no Executivo, Legislativo e Judiciários. Os três poderes serão monitorados, acompanhados e corrigidos sempre que se notar vacilos.
Entendam que as Três Armas estão absolutamente unidas nesses propósitos de colocar este enorme trem, chamado Brasil, nos trilhos em um espaço de tempo o mais curto possível. E caso ocorra a alguém pensar em ilegalidade ou inconstitucionalidade ou ainda em abalo à democracia, lembramos que respeitando estas três premissas, até hoje não vimos qualquer benefício ao país que possa ter sido produzido pelo Executivo, Legislativo e Judiciário.
Assim, os três poderes, a partir de hoje, estarão sob tutela das Forças Armadas e juntos faremos um novo país. Nós ditaremos as regras, manteremos a ordem, sem, contudo, intervir nos poderes constituídos, e, após concluída essa etapa de nossas atividades, a do governo com as Forças Armadas, faremos um comunicado à Nação, objetivando acalmar os ânimos e deixar claro que a partir de hoje as Forças Armadas estarão vigilantes aos acontecimentos no país, no Governo, no Congresso e no Judiciário e, caso o resultado seja aquele esperado pelas Forças, não haverá intervenção militar, o que pode ocorrer somente em último caso. A partir de hoje a bola está com vocês. Estes manuais que receberam ditará as regras a seguir. Esclarecemos que elas foram compiladas em pesquisas realizadas por nossos pesquisadores em vários países, em vários segmentos da atividade governamental, legislativa e econômicas por práticas vencedoras. É claro que os estudos foram realizados em países do primeiro mundo capitalista e liberal. Encerram-se hoje toda e qualquer premissa ou ideologia pautada em países que não se enquadram nos princípios dos países em que foram realizadas as pesquisas.
Temos convicção de que sairemos vencedores dessa nova fase da vida nacional. Não temos outra alternativa senão a de acertarmos.
Temos um compromisso com nosso povo e principalmente com as nações amigas, o compromisso de sermos parceiros confiáveis, íntegros e estáveis, observando rigorosamente os acordos no âmbito da OCDE, OMC, OIT, O ACORDO DE PARIS PARA O MEIO AMBIENTE, e qualquer outro no âmbito da ONU.
Lutaremos com todas as forças para tornar o país, uma Nação relevante nos destinos do mundo, contribuindo para manutenção da paz na humanidade e contribuir para soluções de conflitos em algumas regiões do mundo no âmbito da ONU.
A partir de hoje serão considerados ilegais, pelas Forças Armadas, nos próximos dez anos, os movimentos dos sem terra, dos sem teto e outros com igual ideologia.
A partir deste momento passo à leitura dos tópicos constantes dos volumes aos senhores destinados.

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