em casa 2Em casa

Pândega e exício eram as únicas ocasiões que reuniam a parentela bajuladora que só forçava o riso em auges financeiros.
Flores vermelhas e sorrisos amarelos arrancavam toda a atenção que eu instava em ter de minha tão teimosa mulher, que lidava até mesmo com os piores reveses de forma suave e singela.
Não havia de ser diferente comigo.
Lúcia, como uma sentinela experiente, notou minha inquietação enquanto eu zelava para que tudo corresse bem naquela noite.
Ela aconchegou meu rosto em suas mãos exibindo o sorriso, que tenho certeza, Deus se orgulha até hoje por ter criado algo tão belo e único, acalentando meu cansado corpo com um beijo, dizendo algo que reverberaria em minha psique ao longo desses dez inexoráveis anos.
– Não seja tolo Alfredo! Daqui a pouco estaremos em casa – dizia ela.
Dez anos. . . Assim que atingi o solo, abandonei as malas e disparei na chuva ao encontro dela. Não sei se era pela saudade – ou desejo – mas aquilo nunca havia sido tão bom e doloroso quanto naquele dia. Além do mais, quando se tem mais de sessenta anos, qualquer prática física que não seja respirar, é mais árdua que convencer sua esposa a não guardar coisas velhas.
Eu não deveria me queixar de nada! Já estávamos há mais de dez anos sem nos ver e não iria me comportar como um velho azucrinante, lamentando da artrose enquanto a saudade corroía cada milímetro de minh’alma.
Corri pela calçada lisa sem conseguir tirar da cabeça a efígie dela bailando após um banho em dias felizes.
Foi o que me fez aguentar tanto tempo longe, não foi!?
Ela entenderia o porquê de tanta demora, não é?
Não seja tolo Alfredo...
Ela poderia até entender, mas nunca relevaria. Que marido é esse que se ausenta por dez anos? Um outro alguém já teria usurpado meu lugar. Um sentimento assim não perduraria tantos invernos sem um afago, não é?
Não seja tolo Alfredo!
É risível como as pessoas olham com certa surpresa para um ancião correndo. Cena cômica e medonha ao mesmo tempo. Mas se cada um ali compreendesse o motivo de minha afobação, estaria dando aqueles sorrisos moles que saltam da boca naturalmente, quando vemos um bebê gargalhando sem motivo.
Era assim que minh’alma se sentia. Como um filhote vendo sua mãe chegar do trabalho, pronto para sentir o calor de seu colo.
Entrei rápido deixando para trás o porteiro e suas trivialidades costumeiras. Mesmo passados dez anos, sabia exatamente o caminho para encontrá-la; cruzei salas cinzentas até chegar a um corredor aberto e florido onde ela me aguardava.
Só Deus sabe o que eu senti ali. O cheiro de sua colônia de laranja envolveu-me, fazendo meu corpo flutuar a cada novo passo. Meu espírito já percebera sua presença antes mesmo que meus olhos se certificassem disso. A chuva caía e meus pés doloridos reduziam o ritmo, como fazemos quando chegamos ao nosso lar. Seus lábios selaram os meus novamente, trazendo a recordação de sua voz dizendo que daqui a pouco já estaríamos em casa.
Era assim que me sentia todas as vezes que lia seu nome esculpido naquele mármore branco. . . em casa.

Fabio Darren Andrade

Fábio Roberto Miranda de Andrade, nasceu e mora em Belém do Pará. Tem vinte e oito anos e estuda engenharia elétrica e trabalha como analista em uma universidade em sua cidade.

No Comments Yet.

Leave a comment