O Outono da Inocência

Berenice

The very atmosphere was redolent of death. The peculiar smell of the coffin sickened me; and I fancied a deleterious odor was already exhaling from the body. I would have given worlds to escape — to fly from the pernicious influence of mortality — to breathe once again the pure air of the eternal heavens". Edgar Allan Poe,

“Berenice”

Segunda-feira, outubro. Dia quente. Talvez chova; talvez não.
Preparei um delicioso almoço para minha mulher. Ela está linda, tem a pela alva e me olha como se eu fosse o seu próprio desejo. Amo-a, assim, a cada instante e com toda a alma, para além do que é possível dizer. Ela não tem fome: é sempre assim.
Hoje acordei sem vontade de existir. Fizemos amor, fumamos juntos e esperamos que um amigo qualquer nos convidasse para sair. Eu a vesti quinze vezes e a despi outras tantas, procurando a roupa que se adequasse perfeitamente ao seu novo tom de pele. O convite não veio, assistimos TV e fomos dormir.
Só podia olhar para ela. O meu universo tem se tornado cada dia mais parecido com as palmas das mãos da mulher que venero.
É o fim de uma tarde alucinante, nos reinos onde jamais ousei pisar. Minha vida noite adentro, delgada, intangível. Minha eleita, a mulher que amei no abismo da alma humana, ser a quem sonhei dar o que concebia como felicidade. A perfeição individual que só se realiza no outro e que escapa, sempre. Mas ela era outra e eu o mesmo. Cada vez que deitava ao lado daquela criatura doce, a única que realmente me conheceu, meu corpo se diluía no dela. Só aquele corpo frio poderia arrefecer o inferno no em que meu espírito ardia.
Ela estava deitada, despida, enrolada em um lençol branco. E o calor invadia o quarto, o cigarro aquecia ainda mais o ambiente. Pairava um cheiro de café, vindo do apartamento vizinho. Tive fome e pensei e quis sair: lá fora, na rua, no caos do mundo. Minha fêmea continuava ali deitada, imóvel e pálida, com um esboço de sorriso no roxo da boca.
Não nos vimos durante a tarde. Às oito horas a levei para a banheira. Sua pele adquirira um tom diferente, azulado. Percebi então os ferimentos: na cabeça, no abdômen e no pescoço. Aquilo a deixava com uma expressão um pouco abatida, mas nada que pudesse corromper sua beleza profunda.
Enfim, na manhã de hoje, resolvi sair para comprar comida. Quando saí do apartamento notei a presença de muitos vizinhos perto de minha porta mas – sem lhes dar maior atenção – desejei bom dia e me dirigi às escadas, com a pressa que só os amantes conhecem. Ao voltar, vi desabar o mundo. O prédio estava completamente cercado, policiais, por todos os lados, um aglomerado imenso de pessoas que assistiam perplexas a algum estranho caso. Não tive coragem de me aproximar. Saí, sem destino, pensando o pior, quando vi que um policial com uma máscara abria a janela de meu apartamento.
Tarde da noite, entre as árvores, eu corri e corri. Não queria mais ver o sol ou a manhã, e carregava a vida, em frangalhos, nos bolsos. Queria que não tivesse acontecido, desejava ardentemente o irreversível e me perdia no jogo de luz e sombras que a cidade me impunha.
“Fraco! Acorde! Covarde!”, aqueles gritos ainda me estourando a cabeça. Lembranças do dia cinza que abraçou minha tragédia. E ainda, ainda viva, aquela vontade imensa de ser Deus e de poder matar o tempo com um beijo divino. Era minha culpa. Acordara tarde e já não havia o que fazer.
Eu a feri e a deixei agonizando por dias ao meu lado, possuindo-a quando ela já quase não respirava e mesmo depois. Deus! Como pude? No fim ressurge a sanidade. A única alternativa era perder-se na única possibilidade: apertar o gatilho... adormecer. E ser, ao fim de tudo, o mais vil dos mortais. Ser aquele que não estava lá e que não soube da verdade que era dita. Não presenciei a partida daquela alma, não pude tocar uma vez mais o corpo que lentamente apodrecia em meus braços. Não pude ser senão culpado. Arrisquei tudo e perdi. Percebi, no outono de minha inocência, que a vida parecia-se com o aquele velho jogo infantil no qual escolhíamos prendas desconhecidas com os olhos vendados

Luciano Machado Tomaz

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