Clarisse Cristal

NuvemClarisse Cristal, a cidadã das nuvens

Clarisse Cristal, moradora das nuvens
Prefiro frases feitas, adoro lê-las
E julgá-las minhas!
Posso dizer: vou te amar para sempre!
É um velho clichês, eu sei, mas anima.

Finjo ser poeta! Às vezes contista...
Nessas horas os velhos clichês,
por dizer eu te amo e não bom dia!
Às vezes leio, só às vezes, velhas poesias.

Penso que são meus
Aqueles idílios de saudade.
Às vezes sou poeta pós-modernidade!
Uso velhos clichês por pura vaidade.

Digo que te amo, não digo bom dia,
É oficial agora, Clarisse Cristal
é a mais nova moradora das nuvens,
Aquela manhã cinzenta de outono
sem sol e a cabeça alhures.

Agora, extrema dor e desespero.
O pensamento de Clarisse pairava,
na jovem mãe que se matriculara
em uma academia só de mulheres.
Era, da jovem, novíssima fixação,
E naquele momento, só emoção.

Como o clube do livro,
aconteceu no mês passado,
a redecoração completa da casa no mês anterio,
objetos de desejos efêmeros de quem não tem
preocupações mais sérias. Era sempre assim,
a jovem mãe de Clarisse Cristal, sempre tinha
uma novidade urgente de tempos em tempos
que não chegavam vivas até o final do mês.

A cada efeméride, premente e urgente,
reduzia o tempo a se dedicar à filha.
O pai, de Clarisse, era só trabalho,
executivo de meia idade, orgulhava-se
ao falar, a toda hora, em qualquer lugar,
para quem quisesse ouvir, sobre planilhas de custos,
relatórios, projeções futuras, mercado
internacional, flutuação do cambio,
retração da bolsa de valores e uma série
de assuntos entediantes aos simples mortais.

Agora, pára diante da estante de livros,
usando pesado avental de couro cru,
negro como a noite, bota de cano alto,
com fivelas cromadas, até os joelhos,
saia preta crazy-in-love Portugal,
um crucifixo, artesanal entalhado
em madeira envernizada no pescoço,
uma blusa justa, gótico oco com rendas
cor de vinho emoldurava o tronco.

E ela ali estática diante da estante de madeira,
repletas de livros velhos,
a mais nova moradora das nuvens
pensou em tudo isso e por fim parar,
de forma intempestiva, seu amor platônico
pelo o motoboy da livraria.
Talvez o estilo de vida dele fosse de fato
real paixão derradeira de Clarisse.

As idas e vindas, com o vento morno
acariciando seu rosto, sem horários, sem itinerários,
deu rápida olhada nas redes sociais do moço,
que Clarisse Cristal pode se deliciar e passar
a amá-lo ainda mais, figura ideal, com os gostos
daquele homem, coberto de doces mistérios,
sendo ele um pouco mais velho.

A paixão por fotografia, jardinagem,
viagens sem destinos certos,
tatuagens tribais, música romântica
poesia por fim, logo ele, uma pessoa
tão calada no ambiente de trabalho.

Isso tudo se passou num instante
pela cabeça sonhadora de Clarisse,
a mais nova cidadã das nuvens.
Até uma voz estridente a trazer de volta
para a realidade em que vivia.

Adeus mundo das nuvens, ou melhor, até breve!
Falou uma voz sonolenta e distante dentro dela,
que Clarisse reconheceu sendo dela mesma,
mas com muito dificuldade.

Astride... Astride… desça daí guria
e vem cá, sua sonsa, sua tapada.
Olha pra mim mulher!
Não tinha jeito, fingir-se ocupada
não dava mais, agora era descer
da pequena escada de madeira,
se virar e sorrir docilmente,
escutar aquela criatura enfadonha e
fútil , como se importasse com ela e
a vida vazia de objetivos que levava.

A palavra cavalgadura brotou
como um raio na mente de Clarisse,
de forma natural e mais que espontânea.
Ela pensou no fato de trabalhar
no lugar há quase um ano e no enorme
crachá em seu peito, escrito com letras
garrafais, Clarisse Cristal e que diferença
poderia fazer para a anencéfala.

E foi quase vinte minutos
de um relato monocórdio, sem sal e muito chato,
onde Anna Victória contou em minúcias
atômicas do fim de semana dela em família,
quando teve a felicidade de conhecer
seu novo namorado.

Nossa amiga! Que interessante,
meu Deus, que bom amiga!
Simplesmente fantástico mesmo!
E a vontade de sair dali correndo,
é outro clichê que Clarisse tentava evitar,
mas em vão, pois o sentimento vinham
sem perguntar se poderia vir ou não.

E o terraço mais próximo era outra opção
a ser considerado, em momentos como
aquele, era outro clichê a bem da verdade,
que também chegava sibilante.

E a cena insólita, de ver do alto do prédio,
o próprio corpo espatifado no asfalto quente
e as pessoas passando por seu corpo sem vida
e em pedaços, sem se importarem com ela,
a deixou com dor de cabeça.

E entre a família problema,
subemprego e vazios colegas de trabalho,
paixonite pelo motoboy e repetidos clichês,
ela vivia a vida na espera de algo novo,
não melhor, mas novo e diferente
daquela rotina claustrofóbica
e mais que angustiante.

Samuel da Costa é contista em Itajaí SC

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