Carpe diem.

Eis o cenário!

Graduado em comercio exterior, larga tudo por um hostel.
Aquele da multinacional, deixa tudo pra fritar hamburger.
Ela abriu mão do escritório, status, carrão e longo namoro,
Para estudar, viver solteira e andar de metrô em outro país.
Executiva de grande grupo, contemplada com a recessão,
Finalmente, vai aprender nadar, surfar . . . vai ser feliz!

Mas, até quando aguentarão, sem pedir dinheiros aos pais?
Nada disso! A onda agora é outra! Sem carro, sem luxo,
Contando centavos na nova vida no novo apê. Eles são três.
Longe da chefia, das metas inatingíveis, de egos inflados,
Da infelicidade, dos sorrisos falsos, abraços frios, muxoxos.
Buscam agora, confiantes, a fazer uma coisa de cada vez.

E pensar que o modelo de sucesso dos nossos avós, não faz muito tempo,
Era a família bem estruturada, filhos bem criados, um bom casamento!?
Comida na mesa, lençóis limpinhos, tudo acontecendo sem contratempo!
Bem sucedido era aquele com uma família que deu certo. Família sólida?
Deu tudo errado. Nossos pais, da separação, do divórcio, da reconstrução,
Se a primeira não deu certo, a segunda é linda, é minha, neste momento.

As esperanças dos nossos avós não coube na vida dos nossos pais. Frustração!
A eles, trabalhar duro, estudar, abrir negócios, prestar concurso, suar a camisa,
Nos dar o melhor, ter uma carreira sólida era, sim, os sinais de seus sucessos.
Imóveis quitados, dinheiro no banco, reconhecimento no trabalho, conclusão,
Pessoa de sucesso é aquela que deu certo na carreira, sócio de clube bom,
Assim nossos pais nos criaram, com os instrumentos certos à nossa formação.

Ensinaram-nos a estudar, trabalhar, investir, planejar, e nós obedecemos.
Estudamos, superamos processos seletivos, ocupamos cargos. E agora?
O que está acontecendo, uma crise nervosa? Nossa missão está cumprida?
E os executivos que pensam que seriam mais felizes, se fossem tenistas?
E os tenistas que pensam que seriam mais felizes se fossem bartenders!
E bartenders que pensam que seriam felizes no futevolei? É o que temos?

Percebemos que o sucesso profissional não nos garante a noção da missão cumprida.
Nem sabemos se queremos sentir que a missão está cumprida. Nem qual é a missão.
Nem sabemos se temos uma missão. Quem somos? Valorizamos o amor e a família.
Estamos tranquilos quanto a isso. Se casar tudo bem, se separar tudo bem, também.
Se decidiu não ter filhos? Tudo bem! O que importa é ser feliz. Sem imposição.
Nossos pais já quebraram essa e temos que romper com a carreira perdida. Ou não?

Está na hora de aceitarmos que, se alguém quiser ser CEO de multinacional tudo bem.
Se quiser trabalhar num café tudo bem, se quiser ser professor de matemática tudo bem,
Se quiser ser um eterno estudante tudo bem, se fizer brigadeiros para festas, tudo bem!
Afinal, qual modelo de sucesso da nossa geração? Será que vamos continuar nos iludindo?
Achando que nossa geração também só consegue medir o sucesso pelas contas bancárias?
Ou sucesso, para nós, está na pessoa de rosto corado, corpo sarado, sempre sorrindo?

Será que sucesso é ter escolhas felizes, dinheiro sobrando e tempo faltando,
Apartamento fantástico, colesterol alto, filho voltando de transporte escolar,
Da melhor escola da cidade, roupa nova, tênis de marca, relógio e celular?
Ou dinheiro curto e cerveja gelada, casinha alugada com flores na janela,
Buscando o filho na escolinha do bairro, parando na padaria para um picolé
Com o líquido vermelho escorrendo nas mãos, nos braços até os pés?

Parece-me que precisamos considerar que nosso modelo de sucesso é outro.
Talvez, uma geração carpe diem, que sabe aproveitar o dia, como poucos,
Uma geração de hippies urbanos, sem plano definido, sem rumo, profanos,
Caso contrário não teríamos tanta inveja oculta dos amigos que são loucos,
De jogarem diploma e carreira no lixo. Talvez, mera hipótese, loucos somos
Nós, que jogamos fora, tempo, saúde e vida, todo santo dia, que desânimo!

Ruth Manus
do Jornal O Estado de São Paulo.

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