A Encruzilhada

 

Arte favela

A Encruzilhada

      Dez de janeiro do verão de noventa e quatro na favela da Encruzilhada. A tarde estava agitada no barraco do Chico.

     Geni, sua mulher, entrou em trabalho de parto do quarto filho do casal, uma menina.

     Não foi uma gravidez planejada, ao contrário, foi um acidente, que deixou o Chico, preocupado com as novas despesas no apertado orçamento da família, que sobrevivia à custa dos resultados da coleta de recicláveis que Chico realizava pelas ruas dos bairros próximos da favela com sua carroça de pneus de carro.

      Antes de ir para a favela, Chico, a esposa e os três filhos, viviam nas ruas, e dormiam embaixo de viadutos, no centro da cidade. Tinham vindo do nordeste há dois anos e ainda não tinham conseguido um canto com um mínimo de dignidade para tocar a vida. Chico havia trabalhado na lavoura, no nordeste, analfabeto, não conseguiu nenhum emprego que permitisse o mínimo de conforto para a família na cidade grande.

      Começou coletando recicláveis no centro, o que permitiu juntar um pouco de dinheiro para a compra de uma carroça de um nordestino que havia decidido voltar para sua terra. Juntaram toda a tralha que havia acumulado embaixo do viaduto, colocaram na carroça e saíram à procura de um lugar para montar um barraco. Não havia outro destino que não fosse uma favela, e ali, na favela Encruzilhada, longe do centro da cidade, com ajuda dos que já haviam montados seus barracos, foram conseguindo uma lata aqui, um lâmina de compensado acolá, algo interessante que achava nas ruas, para montar um barraco, na parte baixa da favela. A parte de cima do morro já estava toda tomada. Construíram o barraco próximo do da dona Ju, a parteira.

      As vizinhas Sinhá e a Judite, ajudavam, ansiando pela chegada da dona Ju, na preparação da Geni, deixando água previamente fervida, panos brancos de saco de farinha, lavados para ajudar no parto, além dos produtos necessários para o trabalho que dona Ju trazia em sua maleta de parteira, para minimizar os riscos de infecção, dada a insalubridade do local. Ainda assim, ela nunca deixou de trazer, dentre suas coisas, um ramo de arruda e a imagem de Nossa Senhora Aparecida, sua santa de devoção.

      Dona Ju, sempre morou na favela. Miudinha e alegre, seu marido trabalhou em uma fábrica como faxineiro a vida toda. Falecido há dois anos, deixou para dona Jú pensão razoável, comparada à pobreza dos vizinhos. Ela tinha em seu barraco, um dos poucos em alvenaria, um pequeno negócio em sua sala, onde vendia doces para a criançada, esparadrapo, algodão, gaze, frasco de álcool gel, band-aids de todos os tamanhos e também agulhas, linhas, tubos de cola, cadernos, canetas esferográficas, lápis, borrachas, fitas adesivas, papéis de ceda e linhas especiais para empinar pipa, sem pó de vidro impregnado, que era proibido por lei. Seu barraco ficava próximo da entrada da favela, o que tornava o ponto estratégico para seus negócios.

      Dona Ju era considerada gente fina pelos vizinhos, e por não ter filhos, estava sempre à disposição das mulheres em trabalho de parto que não contavam com o serviço de assistência social, que só aparecia no período de campanhas eleitorais quando aquele povo sofrido representava votos, e depois deixados à própria sorte.

      Por uma dessas tristes ironias, via-se do outro lado da rua, um outdoor da eleição passada, onde se lia “Vote em Dr. Valdemar Garcia – aquele que sempre lutou pela sua saúde! PPB, Partido dos Pobres brasileiros.” O nome parecia uma piada.

     Era perceptível a diferença entre as pessoas que moravam na parte mais alta do morro e aquelas que viviam no sopé. As de cima sentiam-se privilegiadas, apesar de ter que subir todos aqueles degraus diariamente.

      Em dias chuvosos, aqueles que moravam na parte baixa sofriam com a enxurrada que trazia lá de cima toda tipo de sujeira.

      Chico saía cedo para a coleta. E seus melhores dias eram as manhãs de sexta-feira e as dos sábados, quando encontrava muito mais latinhas de alumínio, resultado das noitadas de quinta e sexta-feira, nos botecos das redondezas. Um bom mês de coleta resultava em até mil e duzentos reais e de vez em quando até passava disso, quando o mês era muito bom, mas odiava o mês de julho, quando o resultado caia muito devido às férias escolares, não chegando à metade do que normalmente conseguia.

       Antes de sair, Geni preparava um café preto e dois pães franceses amanhecidos, que ela esquentava na chapa colocada sobre a boca do fogão e passava manteiga, comprada em litros, que derretida fazia toda a diferença para o Chico. Geni preparava também a marmita, com arroz, feijão, às vezes carne de frango, outras um bife, e na maioria das vezes nem uma coisa nem outra, que ele esquentava por volta das onze horas em seu fogareiro, feito de uma lata onde punha álcool que ele comprava da dona Jú, e duas barrinhas de ferro, encontradas perto de uma serralheria, que trazia preso em um cesto embaixo da carroça.

      Tinha determinado dia que Chico, sem saber porque, saía de casa feliz da vida. Saia leve, disposto a fazer a melhor coleta do mês, e o dia passava rápido, sem se preocupar com carros, alguns buzinando e lançando palavrões contra sua carroça que volta e meia atrapalhava o trânsito. E nestes dias a coleta de fato melhorava. Não havia tempo ruim para o Chico que saia todos os dias fizesse sol ou não. Menos aos domingos, que aproveitava para um papo com os amigos no boteco do Gonçalo, ali mesmo na favela, onde tomava uns tragos para abrir o apetite pagando sempre com dinheiro, para não acumular dívidas e não desequilibrar o apertado orçamento doméstico. Almoçava com a Geni e as crianças e dormia parte da tarde. Nos domingos, Geni fazia o almoço com arroz e feijão e abobrinha recheada com carne moída, e umas fatias de queijo prato deitadas por cima.

      Era uma noite chuvosa de inverno, muito frio, que Genilda, nascida no verão, com menos de seis meses de idade, não resistiu a uma pneumonia e faleceu nos braços do Chico. Chico sentiu uma tristeza imensa misturada com alívio, que sua morte trazia para a Geni, que após o parto, passou meses anêmica e com uma fraqueza profunda o que fez seu leite secar poucos meses depois do nascimento da menina que, pela falta de uma alimentação mais forte, definhou rapidamente até a morte provocada pela inanição e falta das defesas naturais do leite materno.

      O dia continuou frio e carrancudo acentuando a tristeza que pairava sobre as poucas pessoas que participaram da cerimônia fúnebre. O padre parecia estar ali por mera obrigação profissional. As poucas palavras que proferiu foram mecânicas, sem qualquer emoção. Fechou seu livro e foi embora, com os sapatos enlameados, sem cumprimentar ninguém, nem os pais da criança.

      A primavera enfim chegou, tímida mas o suficiente para amenizar as tristezas causadas pela perda da filha. Geni recobrava suas forças e Chico continuava seu dia a dia a procura de seu ganha pão por conta do que os mais abastados jogavam fora. No barraco a vida continuava triste e não existia nada que indicasse dias melhores. Um dia bom, outro fraco, na média o resultado dava para manter a família, em sua posição mais baixa da escala social. Sem conforto, sem a menor ambição, a menor vontade de melhorar, nem as ferramentas necessárias para isso. Mas não deixava de fazer pequenas economias, que guardava em casa, em um tubo de lata que havia encontrado no lixo, bem apropriada para ser usado como cofre, que ele mantinha bem escondido no barraco. Mas carecia de boa leitura. O que sabia mal dava para ler placas de ruas para saber onde estava.

      Geni, que já estava quase recuperada conseguiu uma vaga na escola como faxineira para ajudar o Chico nas despesas da casa, pois as crianças já estavam mais independentes. Foi contratada a título precário, mas a diretora disse que faria de tudo para ela ser efetivada. Geni ofereceu ao Chico parte do seu salário para ser guardado no tubo de lata junto com a poupança dele.

      Irene, a filha mais velha, já passava dos treze anos. Já era uma mocinha e estava indo bem na escola. Era uma menina bonita que a mãe procurava vesti-la com simplicidade e sempre que podia, enfaixava seus seios de adolescentes, que já despontavam por baixo da blusa, para evitar ataque de malandros, o que era comum na favela.

      Irene era muito agarrada à mãe e ajudava nas coisas do pequeno barraco. Sonhava ser bailarina ou professora. Um dia teve a ideia de ensinar seu pai e sua mãe e ler e escrever e até fazer contas das quatro operações básicas de aritmética. Mas não sabia por onde começar e pediu ajuda à sua professora que arranjou com a escola material para ensino de adultos, curso ministrado por voluntários à noite com duração de alguns meses. Teve então o início dos treinamentos para a Geni e para o Chico, que logo foram incentivados a fazer o curso na escola. A escola não era longe do barraco o que favorecia aos dois participarem ativamente das aulas que além de serem gratuitas incluía também o material didático. Como haviam entrado para o curso com dois meses de iniciado, aprenderam um pouco, mas não o suficiente para receberem o certificado pleno, mas um que relatava a frequência dos meses restantes. E a fase acadêmica parou por aí, embora não tivessem deixado de prometer voltar no ano seguinte.

      Irene já tinha quinze anos, tornou-se uma menina bonita, quando conheceu um rapaz mais velho, que havia prometido fazer dela uma modelo. Começou aparecer no barraco, com mimos para ela e Geni não estava gostando nada daquilo. Tinha um sexto sentido de que a coisa não ia acabar bem. Chico estava dividido entre as dúvidas da mãe e os sonhos da filha. Até que um dia a polícia apareceu no barraco, por uma denúncia anônima e levou, algemado o pretenso agente de modelos. O sonho da Irene acabou ali, bem como a aflição da mãe. Foi um alívio. O policial disse que ele estava sendo procurado por aplicar esse golpe às meninas bonitas e pobres e por estupro dessas ingênuas. Serviu de alerta para o Chico e para Irene, que repensou seus sonhos e, dali para a frente, dedicou-se somente aos estudos. Ela nunca foi incentivada a estudar, nem nunca foi alertada para a importância do conhecimento, mas ela sabia que o único caminho para deixar aquela vida sofrida para trás era através dos estudos, e incentivava os irmãos mais novos a seguir pelo mesmo caminho, mas o caçula não dava a mínima para a escola. Queria ser como o pai. Ter uma carroça bonita, nova e pintada de vermelho e com faróis para trabalhar à noite, com lanternas traseiras e tudo o mais.

      Irene transformou-se em uma menina bonita e vaidosa. Usava decotes que mostravam, com recato, a parte superior de seus belos seios morenos.

      Geraldo, irmão de Geni, que morava no centro, em um quarto alugado de uma senhora gorda e velha, começou a visitar o Chico com mais frequência. Não era bem vindo à casa do Chico, que tolerava suas visitas em respeito à Geni, que gostava dele.  Era mais novo que Geni, não era de se dedicar ao trabalho, não parava em nenhum emprego. À noite, circulava por bares sujos e mal iluminados, frequentados por estrangeiros que faziam com ele negócios pra lá de suspeitos. Vivia enrabichado com prostitutas e exigia parte do dinheiro que elas ganhavam pelos serviços de proteção. E durante o dia, que não começava antes das dez horas, comprava, por ninharias, joias, relógios e celulares roubados por trombadinhas, que usavam o dinheiro para comprar drogas, e os revendia para comerciantes inescrupulosos do centro, assim se vestia bem e usava tênis caros. Usava loção de cheiro forte e desagradável que havia comprado em uma pequena e suspeita loja em uma galeria na Barão. Mal educado, tinha completado apenas o curso fundamental. Era pernóstico, metido a saber de tudo, falava como intelectual, mas sua conversa era pedante e cansativa. Quando ele aparecia, Chico escondia a garrafa de cachaça, as poucas latinhas de cerveja que tinha na geladeira e só servia limonada, quando tinha limão.

      Já passava das três da tarde quando Geraldo apareceu procurando por sua irmã, encontrando Irene sozinha ajeitando a casa para mãe que estava na escola trabalhando. Ele sabia do emprego e dos horários da irmã. E sabia também que naquela hora encontraria Irene sozinha, pois os dois menores iam com a mãe para a escola. Geraldo a pegou de surpresa, e quando ela percebeu, ele já estava na sala, procurando pela Geni.

      Irene, quando chega do colégio, tira o uniforme e veste um shortinho de jeans, esgarçado artificialmente, com o forro dos bolsos aparecendo e uma blusinha de cambraia branca bonitinha que ela deixa o botão de cima aberto, o que aguçou a imaginação criminosa do Geraldo que passou a lambê-la com os olhos.

      “Minha mãe está na escola, tio! Ela só volta lá pelas seis horas.

      “Tudo bem! Eu só passei para dar um oi pra ela. E que hora ela vai para a escola?

      “Ela tem que estar lá às dez horas.

      “Todo santo dia?

      “É sim, todo dia.

      “E você o que tem feito de bom? Estudando muito?

      “Um pouco.

      “Ouvi dizer que você está indo muito bem na escola. É verdade?

      “Ah tio! Tô indo né.

      “Você gosta de estudar, não é?

      “É sim.

      “E você tem namorado? Algum garotão por aí?

     “Ô tio! Acho que meu pai não vai gostar de ver você aqui comigo sozinha. Ele já deve estar chegando. É a hora que ele costuma chegar.

     “Não! Claro! Claro! Eu só passei pra um alô. Nem precisa falar pra sua mãe que estive aqui. Você está uma menina muito bonita! Te cuida, hein Chuchu!

      Pedaço de pecado tá essa menina! Pensou ele ao sair. Ela vai ter que abrir o jogo comigo, ah isso vai! E vai ser o meu jogo, e não vai demorar muito. Da próxima vez trago um presentinho pra ela. Tenho certeza que ela vai gostar. Xá comigo, mano! Pensou ele, uma expressão bandida, mal intencionada.

     Chico, a caminho de casa, depois do dia todo na rua, passava no depósito de recicláveis da cooperativa, recebia o dinheiro da venda e seguia para a favela, com a carroça vazia. Chegava à sua casa por volta das cinco e invariavelmente, sentava-se no banco de madeira que havia montado ao lado do barraco, à espera da Geni, que largava o emprego na escola às cinco e meia. Passava esse tempo pensando na vida, enquanto Irene terminava as lições de casa. Ela era um dos motivos da introspecção do Chico.

     Já havia passado pelo menos quinze dias da última visita do Geraldo à casa do Chico em horário não recomendável e com intenções muito suspeitas, quando Chico voltava para casa por volta das cinco horas, após ter passado na cooperativa para suas trocas. Estava a dez quadras de sua casa, quando avistou um vizinho, praticamente correndo em sua direção, tentando falar alguma coisa, quase sem fôlego.

      “Chico vamos para sua casa! Aconteceu uma coisa terrível lá! Disse o vizinho.

      “O que aconteceu cara? Fala aí!

      “Melhor ver por você mesmo. Corra na frente. Deixa que eu levo a carroça.

      “Mas fala aí, o que foi que aconteceu?

      “Uma menina foi atacada e sofreu ferimentos muito graves dentro de casa. Corra pra lá!

     “Chico não teve dúvidas, correu quase um quilômetro até sua casa, esperando pelo pior. Tinha certeza de que aquele monstro do irmão da Geni, a qualquer momento, aprontaria alguma coisa com Irene.

      De longe avistou carros da polícia na entrada da favela. Não acreditava que suas preocupações haviam se confirmado. Não tinha dúvidas de que, se o Geraldo ainda estivesse lá ele seria um homem morto. Uma raiva surda fervilhava em sua cabeça. À medida que corria, tinha a sensação de que o barraco ia se distanciando cada vez mais. Ao longe avistou Geni e as crianças chegando em casa. Acelerou o passo, quase correndo, diminuiu o ritmo à medida que se aproximava, sentindo aumentar sua apreensão, seu medo, sua angústia. Seu coração batia descompassadamente, quase saindo-lhe pela boca, que estava terrivelmente seca. Já quase em casa, abrindo caminho entre os curiosos, sentiu forte vertigem, a vista escureceu e ele não viu mais nada.

      Às nove horas da noite, quando recobrou os sentidos, se viu em um leito de hospital, com a Geni ao seu lado com os olhos vermelhos, soando o nariz com seu lencinho branco de cambraia com bordados nas margens.

      Geni pediu a enfermeira chamar o médico que o atendeu. O médico chegou em poucos minutos e examinou o fundo dos olhos do Chico com uma espécie de lanterninha, verificou suas pálpebras, medindo sua pressão em seguida. Estava tudo normal, concluindo ter sido um espasmo provocado pela forte emoção, porém sem risco aparente e que poderia sair do hospital pela manhã. O médico, assim sugeriu, por medida de segurança. Orientou a enfermeira a manter o soro por mais um frasco e aplicar um sedativo e saiu em seguida.

      Chico, como já tinha tomado um sedativo ao chegar ao hospital, mal olhou para Geni e tornou a dormir, passando a noite inteira resmungando o nome de Irene. Dormiu até pouco antes das seis da manhã seguinte. Chico chamou sua esposa que dormia em uma poltrona ao lado da cama.

     “Geni! Acorda Geni!

      Geni acordou assustada.

      “Oi Chico! O que foi? Você está transpirando.

      “Me conta o que aconteceu com a Irene!

      “Você viu aquela movimentação toda na favela ontem, não viu?

      “Eu vi de longe. Depois não vi mais nada.

      “A nossa Ireninha! Eu entrei em casa e vi a Irene deitada na nossa cama, com os olhos semi-cerrados.

      O Chico, nesse momento, caiu em prantos.

      “Ah Chico! Coitadinha! Sua melhor amiga!

      “O que foi? Perguntou Chico, ainda soluçando.

      “A Ireninha ouviu o grito! Todos ouviram!

       “Conta pra mim, o que foi que houve?

      “A Jacy, filha da Tiana, foi atacada em casa por um tarado. Com a idade de nossa filha. Meu Deus! Como isso pode acontecer? A Irene ainda está em estado de choque. Com os gritos, a polícia que passava ali perto, parou e conseguiu prender o canalha. A Jacy está internada, mas passa bem, tadinha!

      “Meu Jesus, Geni! Eu tinha certeza de que tinha sido seu irmão Geraldo.

      “Ah Chico! O Geraldo foi preso na semana passada. Ele fazia muita coisa ruim lá no centro e eu não sabia de nada.

      Melhor assim. Pensou Chico.

      Já havia se passado mais de quatro anos do início de sua poupança no tubo de lata, agora engordado com parte do salário da Geni. Ele sabia que tinha de dar um jeito de transformar aquele dinheiro em uma poupança no banco, pois, embora mantivesse o tubo de lata em absoluto segredo, não sabia até quando o segredo seria mantido. Chico e Geni foram até a casa da dona Ju colher algumas informações, martelando na cabeça uma forma de evitar expor a existência do dinheiro na lata o que poderia ser perigoso ali onde moravam.

      Dona Ju estava sentada em sua velha poltrona quando eles chagaram.

      “Boa noite, dona Ju!

      “Ora! Ora! Como vão vocês? Perguntou dona Ju, com a surpresa da visita.

      “Tudo bem. Respondeu Geni, antecipando-se ao Chico.

      “E Chico perguntou, quase que cochichando:

     “A senhora poderia dizer para a gente o que a gente precisa para abrir uma continha de caderneta de poupança?

      “Bem! É muito simples! Vocês escolhem um banco, vão até lá, levando os documentos. Chegando lá, com esses documentos e com o dinheirinho que queiram depositar o funcionário abre a caderneta de poupança na hora. É bem simples.

      “Então Geni! Não é difícil. Vamos até lá amanhã.

      Como que para agradecer as informações, Geni aproveitou para comprar alguma coisa que lembrou estar quase acabando em sua prateleira.

      “E dona Jú! A senhora tem açúcar? Eu preciso de um quilo.

     “Tenho sim. E não estão precisando de mais nada? Perguntou isso, passando o pedido em um saquinho verde.

      “Não ! É só isso mesmo dona Jú! E muito obrigado pela ajuda!

      Quando chagaram ao banco, não imaginavam ter economizado tanto. Saíram com o recibo de depósito no valor de três mil, quatrocentos e noventa e seis reais.

       Mais um pouco e poderemos comprar uma casinha nossa de verdade. Disse o Chico.

      Para quem, até há pouco tempo, não tinha nenhuma perspectiva de melhora, a poupança era de fato algo bastante promissor. O gerente do banco orientou-os de que não seria seguro deixar o dinheiro em casa e sempre que tivessem uma quantia razoável, poderiam depositar na conta, ainda que fosse um pequeno valor era melhor que deixar em casa, pois além da segurança, começava a render juros assim que depositassem.

      Embora Chico já estivesse nas ruas há mais de sete anos, no fundo da alma, acalentava a esperança de mudar o rumo de sua vida.

       Ocorre, às vezes, e é raro, a confluência do nosso destino com o destino de outra pessoa. É aquela coisa de estar no lugar certo na hora certa. Embora Chico puxasse sua carroça a procura de recicláveis, a Geni, cuidava de suas roupas o que o deixava diferente dos demais catadores que aparentavam serem de fatos mendigos, com roupas sujas e esfarrapadas. Chico estava sempre limpo, barbeado e cabelo bem cuidado pela Geni, o que lhe emprestava uma aparência bem razoável. Chico tinha pouco mais de trinta anos e apresentava compleição saudável e forte.

      Eram nove horas da manhã e o Chico já estava nas ruas há mais três horas. Sentiu fome, deixou sua carroça em frente de uma padaria, ao lado de um conjunto de construção de vários sobradinhos, e entrou para matar a fome com uma média e pão francês com manteiga na chapa.

        No balcão, um senhor, aparentando pouco mais de cinquenta anos, viu o Chico, sua carroça, seu jeito. Era o mestre de obras dos sobradinhos do lado da padaria. Chico pegou sua xícara com café seu pão, entregue pelo moço da chapa, e foi sentar-se em uma mesa próximo da saída, quando foi interpelado pelo construtor.

       Foi um desses momentos em que uma centelha percorre a alma de uma pessoa e a leva a iniciativas incompreensíveis motivadas por algo além do trivial, que liga o pensamento e necessidade de um, com sonhos e anseios do outro. Foi o que aconteceu naquele dia e hora para o Chico.

      “Com licença! Disse o construtor. Não quero atrapalhar seu lanche de modo algum. Posso me sentar?

        A intromissão não agradou nem um pouco o Chico, que imaginava degustar seu pão com café sossegadamente. O construtor percebeu o desconforto do Chico, declinou do pedido e disse:

       “Toma seu café sossegado e quando terminar, passe aqui do lado, no meu escritório na obra. Quero te fazer uma oferta.

       Quinze minutos depois, Chico saiu da padaria, puxou sua carroça até a entrada da obra e procurou o escritório do homem, que pediu que ele se sentasse uns minutos apenas, abrindo a conversa, naquela manhã:

     “Posso fazer algumas perguntas? Espero que não se ofenda, mas são perguntas importantes. Fique muito à vontade para se levantar e ir embora se decidir por isso. Eu vou entender.

      “Sem problemas! Respondeu Chico.

     “Estamos construindo nesse lote, dezoito sobrados, para venda, e a primeira pergunta é se você gostaria de mudar de vida? Aprender uma profissão?

     “Eu gostaria sim. Respondeu Chico, já considerando, com certa melancolia, deixar as ruas, a alegria de encontrar várias latinhas de alumínio em um só lugar, a saída pela manhã, a liberdade de ir onde quisesse e retornar à tarde com o dinheiro da troca dos recicláveis na cooperativa.

      Em contrapartida, poderia até dormir mais um pouco, voltaria praticamente no mesmo horário e dependendo da oferta, com certeza seria algo mais digno de um ser humano.

     "Te ofereço uma vaga de servente de pedreiro, salário, registro em carteira, horário fixo das oito às cinco, café da manhã, almoço e transporte. E tem mais: o servente, atende os pedreiro e nos intervalos fica sentado à espera de novos pedidos.   É quando aquele mais interessado, fica ao lado do mestre, aprendendo bastante coisa em pouco tempo. Assim, em tempo relativamente curto, você já pode começar pequenas tarefas de pedreiro e ir crescendo na profissão. Não precisa responder agora. Continua sua coleta, volta para casa, fala com a esposa, e se for o caso, me procura aqui pela manhã.

      “E quanto é o salário? Perguntou Chico.

      “O piso não é muito. Mas você terá depósitos de fundo de garantia e férias. O que é algo bem interessante. O salário é de seiscentos e cinquenta reais. Lembrando que além disso, você tem café da manhã, almoço, transporte além do fundo de garantia e férias que já te falei. Você sabe ler? Perguntou o homem para encerrar a conversa.

     “Sei sim! Mentiu Chico, apostando em sua capacidade de aprender rápido, ainda que tivesse que passar noites em claro e finais de semana estudando. Mas ele já tinha um princípio de alfabetização o que já era um bom começo e em casa tinha uma ótima professora. Como tem palhaço analfabeto que é deputado? Por que não posso ter carteira assinada? Pensou Chico.

                                                           Fim

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