Era um sonho

um pesadelo

Era um sonho

Quando ela foi embora, o meu mundo desabou. Nada mais tinha sentido para mim. Os dias se arrastavam com uma lentidão enfadonha no calor do verão. Sentia um vazio interior difícil de ser preenchido. De uma hora para outra me vi completamente só. As noites passaram a ser um tormento. Não conseguia dormir. Músicas que antes me faziam sonhar, agora me eram dolorosas. O tempo assumiu dimensão galática. Um mês passou a ser uma eternidade. Um ano era tempo longo demais. Não imaginava como preencher o vazio que tomou meu peito nas minhas horas de folga, nos meus finais de semana.

Passei a observar as pessoas, tranquilas, alegres, com seus namorados, suas famílias, como algo inatingível. Ouvia pessoas, colegas, fazendo planos, quando os meus haviam evaporados. Não mais tinha vontade de sair, de ler, de conversar. Nada!

O pai dela, preocupado com seu futuro, vendo-a enroscada com alguém que não tinha a menor possibilidade de ascensão social, pelo menos naquele momento, sem nada a oferecer, decidiu levar sua filha para a capital, onde se prepararia para o vestibular na Universidade Federal, uma das mais prestigiadas do estado.

“Minha filha será doutora! Dizia ele. Vai ser advogada! E até Juíza, pode acreditar.

Ele estava certo, coberto de razão e eu teria feito o mesmo no lugar dele. Além de não ter nada a oferecer, pelo simples fato de não pertencer a uma família de mais posses, ainda por cima era muito feio.

Não tinha pedigree! Dizia ele, a boca miúda.

Meu primeiro emprego foi em uma oficina de automóveis. Era aprendiz de eletricista até o dia em que me cansei e pedi as contas. Tinha apenas quatorze anos e tinha um sentimento de que aquela experiência não me levaria a lugar algum.

Pensei então, que ali o futuro não seria muito promissor, quando consegui um novo emprego numa loja de presentes. Pelo menos não tinha mais que me deitar debaixo dos carros em dias de chuva. E a loja tinha muita coisa interessante para presentes, apetrechos de cozinha, brinquedos, e a clientela era mais divertida.

Como era pobre, o único meio de me safar daquela situação era através do estudo. Estudava muito. Era meio burro, assim, tinha que estudar muito mais que a maioria dos meus colegas do curso médio noturno. Às vezes penso que a burrice me ajudou pois concluí o ensino médio em primeiro lugar do colégio e, sem frequentar o curso preparatório, passei num dos primeiros lugares no exame de ingresso na escola de medicina na capital. Na escola de medicina, tinha alojamento, e como passei em segundo lugar nos exames de admissão, me deram uma pequena bolsa para minhas despesas. Não era muito, mas estava longe de passar fome. E como já estava acostumado, dada a minha pouca inteligência, estudava muito e assim dava até para economizar uns trocados.

Passados três meses, ela voltou à cidade. Agora já como futura aluna da faculdade de direito no próximo ano. Era começo de dezembro quando liguei pra ela, feliz da vida, convidando-a para um encontro. Ela foi minha primeira namorada.

Falar com ela pelo telefone me fez reviver. Tudo ficou colorido. O dia quente de quase verão ficou lindo. Ela inventou uma série de desculpas. Quase não consegui vê-la. Mas eu insisti e ela me prometeu que na tarde da próxima sexta, lá pelas três, o que me pareceu uma eternidade, ela visitaria uma tia, e depois da visita, eu poderia encontrá-la na avenida lateral da Praça do Vigário. Vesti então minha melhor roupa que não era lá essas coisas e saí a pé. Meu relógio, temperamental, funcionava quando queria, indicava que estava quase na hora do encontro marcado.

Ao longe, vi uma garota, completamente mudada. Estava de saltos e isso a deixava ainda mais alta. Estava com um tubinho estampado muito bonito. Estava também, com um chapéu claro, elegante e de óculos escuros. Aquela imagem foi montada, acredito, com o propósito de mostrar-me o desnível entre nós. Eu me senti muito pequeno e ridículo ao lado dela! Ela parecia uma atriz de cinema...

Ela quase não me dirigia o olhar. Estava altiva, distante, respondia minhas perguntas com monossílabos. Sim, não, talvez. Meu coração batia forte. Estava com dificuldade de controlar minha respiração e isso me incomodava. Não era normal. Estava com uma ansiedade desassossegada. Tomei na minha sua mão perfumada. Ela não ofereceu resistência, e andamos um pouco de mãos dadas, como a dama e o vagabundo. Eu estava nas nuvens até seu pai aparecer naquele carrão, abrir a porta e, ela foi com eles para o Country Club.

Fiquei sozinho, andando sem rumo pela tarde quente, feito um tonto. Não fui convidado a ir ao Country Club com eles. Lá só entrava sócio, gente bacana.

Meus amigos não eram lá gente muito fina. Tinha um deles que se chamava Anselmo. Era conhecido como polaco. Ele era ruivo. Uma noite, quando voltávamos do colégio, horário de verão, tínhamos tido apenas a primeira aula. E ainda estava claro, quando paramos em uma praça e ficamos conversando por um bom tempo. Era final de curso, já havia sido aprovado com louvor em todas as matérias. Ele me mostrou umas pedrinhas brancas que tirou do bolso esgarçado da calça, e me perguntou:

“Você já viu isso?

“Não! Nunca vi. O que é isso?

O Polaco, segundo me contaram, já havia tido alguns problemas com a lei. Ele sumia por uns tempos e reaparecia, com essas coisas, com perfumes caros e com um relógio cheio de ponteiros. Seus tênis não eram comuns, e quando a coisa começava a minguar, ele desaparecia, provavelmente para se reabastecer dessas coisas.

“Eu soube que seu ex-futuro sogro levou sua namorada para a capital. Disse ele. Que merda não? Que falta de consideração! Se você precisar de alguma coisa, um servicinho qualquer é só me dar um toque! Isso não se faz com ninguém! Você deve estar mais pra baixo que cobra serpenteando em campo de bosta.

Aquela maneira de falar não me agradava nem um pouco. Mas ele estava coberto de razão. Eu estava muito pra baixo! Ainda!

“Essas pedrinhas vão te fazer muito bem! Continuou ele. E é verão meu cara. Natal, bebidas, festas. Esqueça aquela vagabunda! Você vai encontrar uma garota daqui, do nosso meio, é só questão de tempo.

Nosso meio? Pensei eu. Sem ela eu não tenho vida. Não sou nada. E depois, vagabunda deveria ser a mãe dele. Pensei comigo. Mas, faltou muito pouco para eu fechar o tempo com ele. E, essas idas e vindas sei lá para onde, recomendavam cautela. Engoli o nada e fiquei na minha, quando ele, sossegadamente, tirou um cachimbinho, enfiou uma pedrinha e acendeu. Ficou ali um tempo. Seus olhos começaram a virar nas órbitas, quando, num acesso de tosse, ele me ofereceu o cachimbo da paz, como ele chamava aquela coisa.

Dei uma tragada longa, depois mais uma. Senti uma leve tontura e meu coração pareceu disparar. Fui me acalmando. Uma sensação de alegre euforia tomou conta de minha mente. Foi uma loucura!

Quem precisa dela. Foi para a universidade? Que fique por lá. Que coisa boa! Estou flutuando! Fiquei ali, com o Polaco, por umas três horas. Jamais imaginei que poderia existir coisa tão mágica!

No outro dia estávamos novamente na praça. E ele apareceu com novas pedras. E ficamos fumando aquela coisa até de madrugada quando meu estômago começou a revirar. O que era tão bom, ficou muito ruim. Sentia minha cabeça dar voltas estonteantes. Me vi contorcendo no chão. Acho que vou morrer, gritei! Gritei muito, quando minha mãe me sacudiu com força!

“O que foi menino? Quem vai morrer? Levanta dessa cama que preciso arrumar suas coisas para a viagem!

Acordei completamente molhado de um suor frio, gelado. Quando perguntei para minha mãe?

“Onde está o Polaco? As pedras?

“Que Polaco? Você está passando bem? Você resmungava alguma coisa! Foi só um sonho!

“Nossa! Foi um pesadelo! Uma coisa muito ruim. Acho que foi um aviso para passar longe dessas coisas, principalmente quando estiver na escola.

Ainda penso um pouco nela. E quando penso, um fiozinho de tristeza ainda me aparece de vez em quando. Daí, respiro fundo e me dirijo para a sala de aula. A experiência na academia me recolocou no caminho dos desafios o que me faz sentir vivo, confiante no futuro que estou construindo aqui.

O tempo passou muito depressa quando me vi estava às portas de saída da residência. Dada minha pouca inteligência, estudando muito, me graduei como as notas mais altas da turma. Meus colegas me chamavam de cdf. Eles não percebiam que eu não tinha carro enquanto eles vinham para a escola em seus carros do ano e se divertiam nos finais de semana, indo às prais que não ficavam muito longe, me restava então, ficar estudando e no final do curso até que tinha feito uma poupança razoável considerando minha condição de pobre. O hospital onde conclui a residência como cirurgião me convidou ficar uma temporada de mais dois anos e poderia ser contratado com salário bastante animador.

Era uma sexta-feira, quando me preparava para um festa da turma com meu colega, na virada de ano quando o hospital me chamou para uma cirurgia de emergência. Eu e meu colega éramos muito ligados e acabamos por fazer a cirurgia juntos. Havia uma certa competitividade entre nós, tendo em vista o seu talento como cirurgião. E nos sentíamos bem trabalhando juntos. E aquela, não sei por que razão ele me disse que eu faria a cirurgia e ele me acompanharia. A operação durou até às três horas da manhã e foi bem sucedida. Tiramos um abcesso grande da barriga do homem e pelo que vimos e pela sua idade havia a chance de sobrevida de pelo menos mais cinco anos, ou talvez mais até. O homem estava curado.

No dia seguinte dormi até às duas da tarde. Almocei em um restaurante que a maioria do pessoal do hospital frequentava e fui para o meu plantão que começaria às dezoito horas. Fiz minhas visitas até o 42 onde estava meu paciente da véspera.

“E aí, meu amigo? Como passou a noite? Alguma dor? Eu perguntei aquelas coisas de praxe, mas havia algo em sua fisionomia que me chamou a atenção. Peguei o prontuário e vi que seu nome era o mesmo daquele cuja filha ia ser doutora na capital. Ele me reconheceu de imediato e percebi que ele ficou constrangido com a constatação.

“Dizer que estou me sentindo bem não seria verdade. Estou com muito medo.

“Medo de que João Batista? O senhor está curado! Não tem mais nada aí dentro. Tiramos tudo o que não prestava e o que ficou, pode ter certeza, vai levar o senhor até os oitenta, e olhe lá!

“Doutor, o senhor sabe com quem está falando?

“Eu sei e fico contente de ver que o senhor está bem. Há muito tempo não tenho notícias do pessoal de lá do nosso pedaço.

“Eu não dava nada pelo senhor! Sem ofenças é claro. E olha agora!

“Eu também não me dava nada. Mas eu tinha uma coisa que valorizava muito.

“Minha filha?

“Também, mas, muito mais que ela, meu futuro. Estudei muito seu João.

“Você é um vencedor! Te admiro muito.

“É a primeira pessoa a me dizer isso, seu João. Um vencedor! Quem diria?

. . .

“E aí, cara, tudo bem?

“Sim. Cansado, mas bem.

“Me diz uma coisa, por que você falou pro nosso paciente que é gay?

“Qual o problema em ser gay?

“Nenhum, mas você mentiu!

“Menti, mas ele volta pra casa sem o sentimento de culpa de pensar que errou no passado. Ele arregalou os olhos, olhou pra mim e disse: eu não acredito! O senhor está bonitão, mas gay o senhor não é.

“É hilário.

“É medicina meu caro. Às vezes a gente tem de curar o passado das pessoas para que elas se sintam melhores no futuro.

“Que brega! Mas é verdade. Para uma sexta-feira tá valendo. A gente dá um jeito nisso no boteco. Até lá!

Fim

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