A Entrevista

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A Entrevista

As fases boas e ruins vêm e vão embora também. Hoje me encontro em uma fase ruim de dar dó, torcendo para que ela vá embora o quanto antes. Desempregado há mais de cinco meses. Sem dinheiro, sem perspectiva, a economia desse país quase parando. Desemprego não é bom. A auto-estima fica um lixo, e a vontade de reagir vai diminuindo com o tempo. A cabeça da gente fica confusa, fica difícil pensar. Quando se é o chefe da casa, aquele a quem compete trazer conforto, alimento, roupas, alegria, carinhos, prazer em estar juntos, a coisa fica muito complicada. O mundo desaba sobre sua cabeça.

Quem pode te ajudar? Ninguém! Você está só. Sinto sufocante dor no peito e não consigo chorar, o que poderia aliviar esse peso dentro de mim. O pouco que temos em casa vem do salário de minha mulher. Seu emprego não é dos melhores, mas a coisa estaria pior não fosse ele.

Já trabalhei em algumas empresas, e na última fiquei por mais de cinco anos. Gostava de trabalhar lá.

Estaria lá até hoje se ela não tivesse sido vendida para um grupo de investidores estrangeiros e a primeira coisa que fizeram foi mandar gente embora.

Já mandei um sem número de currículos. Já fiz outro sem número de entrevistas. Até agora nada. Minha mulher acha que eu fico em casa sem fazer nada, esperando um emprego cair do céu. É complicado. Vai chegar um dia e ela me manda embora. Uma boca a menos...

Ainda bem que não temos filhos. A coisa estaria pior. Os chamados para entrevistas minguaram. O pouco que aparece é para subemprego. Não saio de casa para ganhar miséria.

Opa! O telefone está tocando. Ainda não cortaram. Sinto que é hoje. Vai ser hoje.

" Alô! Disse a voz do outro lado.

 "Sim!

 "Falo com o senhor Genoval?

 "Sim! Sou eu ao seu dispor!

 "Tenho uma entrevista de emprego para o senhor. Recebemos seu currículo. O senhor pode anotar o endereço, a hora da entrevista e nome do entrevistador?

 "Sim claro! Pode falar.

 "Rua da Paz, 665, conjunto 96, Vila Alpina, falar com senhor Genésio Covas. Venha às dez horas do dia 26. Obrigado!

 "Eu que agradeço! Até logo! Genésio Covas? Pensei. Deve ser coisa boa. Ele deve ser parente daquele governador.

Adivinha o que aconteceu?

Emprego temporário de outubro até o dia dez de janeiro, para as vendas de fim de ano. Prometeram vale transporte, vale refeição, salário mínimo mais percentagem nas vendas e prêmios. Trabalhar de segunda à sexta das 8 às 18,

Vender túmulos?

Eu?

Nem morto!

O cara veio com essa:

 "O senhor vai entrar para o ramo imobiliário.

 "Imobiliário? Perguntei cismado.

 "O senhor vai vender túmulos.

 "Túmolos?

 "Não! É túmulos. É como se fosse um apartamento, uma casa, um terreno. Túmulo. Vendendo cem túmulos o senhor ganha um.

 "Ganho um?

 "É isso mesmo.

 "Isso mesmo o que?

 "Ué! Um túmulo!

 "O que vou fazer com um Túmulo?

 "Ué! O que a gente faz com um túmulo? Ô meu?

 "Mas por que tem ser temporário e aproveitar as festas de fim de ano? Ou alguém pensa em comprar um túmulo para dar de presente de Natal! “Coisas da diretoria”. Respondeu o entrevistador.

Só se for pra dar de presente para minha sogra. Pensei comigo. Aquela Jararaca. Velha besta. Cheia da grana e a gente aqui na merda. Ela me trata como “esse daí”. Ela mora na vila Carrão. Um dia estava lá e a ouvi falando com minha noiva, lá na cozinha:

" Você vai casar com “esse daí”? “Esse daí?” “Esse daí” não tem onde cair morto!

Hoje já teria! Se vendesse os cem!

É brincadeira! Saí de casa para uma entrevista dessas. E lá se foram mais oito reais de condução. Ô miséria!

Vou aguardar mais um pouco, antes de botar uma corda no pescoço. Minha mulher estava tão esperançosa! Que pena! Ela vai ficar triste.

Tudo bem! Eu acho que um sotaque meio gaúcho, meio carioca pode ajudar. Quem sabe até um meio francês puxando um pouco os erres? Na próxima entrevista, vou puxar um pouco para o carioca. Acho que vai dar certo.

Oito horas da manhã. Metalúrgica de médio porte. Vaga de controle de entrada de insumos e saída do produto final. Excelente vaga.

 "Bom dia! Cumprimentou-me o entrevistador.

 "Bom dia senhor!

 "Fale-me de sua experiência.

 "Tipo o quê, mermaun?

 "Um momento! Volto já!

Não deu certo o sotaque. Fiquei lá mais uns dez minutos quando entrou uma moça informando que a vaga tinha sido preenchida naquele exato momento. Pensei comigo. “Naquele exato momento, só podia ser eu. Fui o último entrevistado!”

Ela disse que não. Ela falou que foi um toco. Eu perguntei o Toco? Ela respondeu: não senhor, foi um toco mesmo.

Perdido por um, perdido por mil:

" Que horroar! Maish que mérrrrda! Péla-saco o Mané da entrevishta aí ô. Aeah!

Pensei melhor e decidi ser eu mesmo. Sem sotaque estrangeiro. Na próxima entrevista serei eu mesmo, nada de invenção.

Acho que agora a coisa vai. Já começaram aparecer algumas entrevistas. É só ter paciência e me preparar para elas.

Passou uma semana, e outra entrevista marcada. Uma empresa de prestação de serviços. “Sei lá que tipo de serviços!”

Eles não explicam nada antes da entrevista. Mas para quem está parado há seis meses!?

   Fui preparado para gastar o vernáculo. Falando não tem pra ninguém.

 "Boa tarde! Cumprimentou-me o entrevistador, quase sussurrando.

  Cara esquisito ali na minha frente.

  Eu não podia rir. Tinha que ficar sério a todo custo.

 O cara tinha um leve estrabismo.¹ Daqueles que os olhos têm personalidades próprias. Um subia, o outro descia. Um olhava para a esquerda, o outro ficava olhando fixamente para mim. Ele era calvo e deixava o cabelo crescer muito de um lado e depois jogava por cima da cabeça. Muito esquisito! Tinha o nariz torto pro lado esquerdo. Eu não podia rir. Esse cara só podia ter sido atropelado por uma manada de elefantes. Era de uma feiura dolorosa. Estava com dificuldade de segurar a risada. É rir um pouquinho e logo explodir numa gargalhada. Ia pegar muito mal. Caceta! Por que colocar um cara desses como entrevistador? Pensei em outra coisa e baixei os olhos, numa tentativa heroica de evitar o vexame.

" Então vamos lá! Disse ele.

Era fanho.²

Não! Não! Eu não mereço isso. Explodi numa gargalhada. Não conseguia parar, muito menos falar alguma coisa. Ele ficou muito sério.

" QQual o problema? Perguntou ele.

Quanto mais ele falava, mais eu ria. Não conseguia segurar.

" A...a.. entrevista es...es...tá te...te...termi...termi...nada. Disse ele, fanho. E ainda por cima, gago.³

Rachei o bico. Levantei-me, meio atordoado, quase sem fôlego.

Fui convidado a sair, quase aos empurrões.

Essa entrevista também não foi legal.

Voltei para casa, procurando esquecer a cena e até com muita pena do sujeito.

Parece que o cara contou para todo mundo. Esperei mais de dois meses para a próxima entrevista, que foi marcada por telefone na segunda-feira. E lá estava eu, às nove horas em frente de um prédio elegante.

Fotografado, peguei o crachá-cartão de entrada e subi ao décimo andar.

Esperei menos de cinco minutos, quando a recepcionista encaminhou-me à uma sala de reuniões, próxima da recepção. Acho que era para facilitar a saída dos candidatos. A sala estava fria, em seguida entrou o entrevistador.

Moreno alto, bigodinho convicto, bem trajado.

Ali era a sede de uma transportadora de grande porte. E a vaga era de controle de despachos. Logo pensei em macumba.

" Bom dia! Cumprimentou-me ele.

Graças a Deus não é fanho! Agradeci. Nem gago.

" Bom dia senhor!

" Seu currículo emoldura a pessoa que estamos procurando.

Fiquei pensando o que ele queria dizer com emoldura. Acho que ele está me testando. Se ele quer falar difícil, ele encontrou a pessoa certa.

"Pois não senhor.

 "Gostaria que você falasse alguma coisa sobre suas experiências, sr. Genival.

 "Genoval, senhor. Genoval Gerolamo Simético.

 "Simétrico?

 "Não! É Genoval Gerolamo Simético, sem o erre. - Quando. . .

 "Um momentinho Genoval! Seu nome é italiano?

 "Não senhor. Minha avó disse que é bugre.

 "Bugre?

 "É! Bugre!

 "Bugre?

 "Isso mesmo. Bugre.

 "O senhor ia dizendo?

 "Quando saí de casa...

 "Perdão Bugre! Não! Genoval! O que é isso? Não é um time de futebol? Parece que já ouvi alguma coisa. Bugre! Bugre! Bugre! Hum!

 "Não senhor. É o meu nome. Simético, é bugre. É uma coisa de índio.

então, esta manhã, perguntei para mim mesmo: o que o Genoval gostaria de fazer? E aí o Genoval respondeu: ah! Claro! Vou trabalhar na Gomesforte Transportes. E lá que farei meu futuro. Saí de casa convicto da minha convicção. Daí...

 "Já sei Genival.

 "Genoval!

 "Genoval. Bugre é mesmo uma aldeia. Aldeia de índios. Perdão Genival! Continue.

 "Genoval. Daí o Genoval respondeu...

 "Um momento Genuval! Fale da sua experiência. O que você já fez na vida.

 "É Ge-no-val. Eu estava pensativo, vindo pra cá. Caindo em si, pensei: tenho que ter foco na minha experiência, mostrar aos doutores que tenho a mais distinta capacidade de realizar um bom laboral para a empresa dessa importância no mapa transportal brasileiro. Excrusive, eu posso afirmar com todas as letras: eu sei controlar.

 "Bugre!

 "Isso mesmo, bugre.

 "Essa palavra não me sai da cabeça.

 "Então Genuval, qual a sua graduação?

 "Um metro e setenta e seis.

 "Não! Não! Academia ?

 "Academia?

 "Isso mesmo. Formação acadêmica.

 "Pensei que tivesse aí no meu currículo. Sou administrador de empresas pela Universidade Pindorama, Upin e com pós na FGV. Especialista em controler.

 "Controller? FGV?

 "Sim! Faculdade Genuíno Virgulino. É do senador Jacinto Lamaçal.

 "Faculdade Genuíno Virgulino? Do senador Lamaçal?

 "É do Lamaçal.

 "Lamaçal?

 "É!

 "Sabe? Esse tal de Lamaçal não é aquele que foi pego com a boca na botija?

 "Boca na botija?

 "É! Com o pé na jaca e foi preso?

 "Não! O que foi preso é outro, que também tem lama no nome. Esse aqui, o Lamaçal, prometeu uma faculdade para a gente lá de Itaquaquecetuba e fez mesmo. Ele conseguiu apoio do governo e todos que entram, e todos entram, têm bolsa integral. E se tiver filhos já entra também para a bolsa família. Eu não tenho filhos.

 "Então para encerrar só mais uma pergunta. O senhor conhece alguma língua?

 "Só uma.

 "Só uma?

 "É!

 "E, qual língua?

 "Língua de porco.

 "Língua de porco?

 "Eu não vejo como colocar outra língua na feijoada que não seja a língua de porco.

 "Juvenal, chega aqui pertinho. Acho que ninguém precisa ouvir isso. Mais perto!

 "Você precisa muito desse emprego, não é verdade?

 "O senhor não faz ideia.

 "Esse negócio de língua de porco, é sério?

 "É que me passou pela cabeça. Faz tanto tempo que não como uma feijoada. Com língua de porco.

 "Entendo sua situação! Genival, eu não entendo porque estou fazendo isso. Espero não me arrepender. Nesta pasta tem a documentação necessária para o registro. Vamos virar sua vida de ponta cabeça. Caso não exista nenhum impedimento, o emprego é seu.

Deus seja louvado! Pensei comigo. Esse caro é meu anjo da guarda.

 "O senhor não se arrependerá! Isso eu juro pelo que me é mais sagrado.

 "Conto com isso. Boa sorte!

Apesar das limitações, o Genoval tornou-se funcionário exemplar e desempenha sua função de registrar as placas dos carros e caminhões que entram e saem da empresa com responsabilidade e segurança e tem uma cabine só para ele. Está feliz no emprego. Mas continua sendo tratado, pela sogra, como : “esse daí”.

Notas
1-O estrabismo é uma disfunção dos músculos que movimenta o globo ocular. O bebê pode apresentar essa anomalia até os quatro meses de vida e sua correção ocorre naturalmente. Após esse tempo, é aconselhável consultar um médico. A cura terá maior sucesso quando tratada antes dos dois anos de idade.Mas toda criança deve ser levada a um oftalmo, para avaliação de rotina.
2-A voz anasalada e a denasal (ou fanha) têm dois tipos de tratamento. A fonoaudiológica e cirúrgica. Quanto antes iniciar o tratamento melhor o resultado.
3-Vários são os fatores que podem provocar o distúrbio da fala conhecido como gagueira. O tratamento reduz o distúrbio em mais de setenta por cento dos pacientes. "Espera que passa" não é o melhor diagnóstico. Quanto mais cedo consultar um(a) fonoaudiólogo melhor será o resultado.

2 Responses

  1. Bem legal! Já estou esperando o próximo.
    • Obrigado Maria pelo seu comentário. Sua participação é muito importante para nós.

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