Izabela

olhos verdesIzabela

          Izabela era secretária executiva do presidente da holding de quinze empresas, após ter passado seis anos estudando na Inglaterra e na França.

          Morava em um apartamento confortável e tinha na garagem um A4, branco, do ano. Ia ao cinema de vez em quando, mas sua paixão eram o teatro e os livros. Via pouco TV, embora tivesse em seu quarto um monitor grande. Não era de malhar muito, mas o suficiente para manter a saúde e o peso controlado. Quando não ia à academia, corria seis quilômetros em sua esteira, instalada em um dos quarto do apartamento.

       Na França, teve uma grande paixão por um jovem problemático. Ao se aproximar o dia de voltar para casa, Dinis não se conformava com sua volta ao Brasil, para cuidar da mãe, após a morte de seu pai, mesmo com a promessa de voltar algum dia.

          Ele tinha um ciume doentio a ponto de, num ato de loucura, disparar contra a própria cabeça, em sua frente, quando a viu de malas prontas. Até então, não mais tinha mantido relações afetivas. Permaneceu fria como uma rocha, que só doutor Enzo conseguia aquecer. Ela alimentava uma paixão impossível. Talvez visse nele segurança, esperando que um dia pudesse tornar-se realidade. E permanecia assim, sem se dar conta do passar do tempo e sem abrir possibilidades de encontrar alguém de sua idade e interesses semelhantes. Uma ou duas vezes por mês, no sábado pela manhã, passava algumas horas segurando a mão macilenta de sua mãe em uma casa de repouso, com alzheimer em estágio avançado. Seu pai havia falecido há muito tempo, e desde então passou a cuidar da mãe,  o que a  dificultava pensar em outra coisa senão com a rotina do escritório. Tinha algumas amigas com quem costumava sair de vez em quando a  uma noitada de boliche e algumas vezes um clube de dança de salão.

          De segunda a quinta-feira,  à noite, orientava grupos de conversação em inglês e francês em uma escola não muito longe de sua casa. Eram momentos agradáveis, quando tinha contatos com pessoas de idades diversas e muita delas, executivos de multinacionais que não cansavam de convidá-la, não só para encontros como também a mudar de emprego. Algumas a deixavam seriamente hesitante como a do Rutger, um executivo holandês de um dos maiores laboratórios de medicamentos do mundo com sede na Basileia na Suíça.

          Rutger era alto, moreno, cabelos negros, seguro de si, não usava aliança e uma noite, depois da aula,   insistiu acompanhar Izabela até sua casa. Pararam em uma pequena  pizzaria   no caminho, com  espaço externo protegido por algumas árvores, decoração bonita e as luminárias entre a vegetação, davam um toque especial ao ambiente. Ouvia-se música agradável e relaxante. Ficaram ali um tempo,  conversando e a  conversa fluía fácil com aquele holandês que mais parecia um latino, de tão bonito. Izabela percebeu que Rutger, tinha nível cultural bom, falava inglês, alemão da Suíça, holandês, francês e português e sobre vários assuntos com profundidade sem ser pedante.

        Criado na França e muito simpático, ele gostava de conversar com ela. E ela, por sua vez, aproveitava aquele tempo para manter seu francês atualizado.

         “Isabela, você algum dia já pensou em mudar de emprego?

         “Não! Não penso nisso. Pelo menos por enquanto. Estou lá há mais de dez anos, conheço muito bem o que faço. O grupo representa segurança e tenho amigos lá de longa data. Não sei por que pensaria em deixar a empresa.

         “E como é esse grupo?

      “É um grupo de empresas localizadas em várias regiões do país. Tem uma história interessante e opera em vários segmentos. As coisas por lá são  dinâmicas e às vezes excitantes. Ocorreram  mudanças lá recentemente, mas nada que me fizessem mudar de emprego. Estou chefiando uma equipe à disposição do ex-presidente e maior acionista. Sempre me tratou bem. É respeitoso. . .até demais. Tenho por ele um sentimento de gratidão por esses anos todos. Consegui muita coisa com esse emprego.

         “Bem, se algum dia você pensar, por qualquer motivo,   mudar de emprego, não se esqueça de que sou o primeiro da lista. Eu teria a maior satisfação de tê-la trabalhando comigo. E eu seria também respeitoso. . . mas nem tanto! Riram os dois, à frente de uma pizza e duas taças de vinho.

       Isabela chegou em casa, tomou um banho e tentou retomar a leitura do O Segredo do Meu Marido, mas não conseguiu ler mais que duas páginas e caiu no sono. Às nove da manhã, da sexta-feira, brilhante e agradável daquele outono, estava no escritório, e trabalhou até mais tarde, pensando na noite anterior com Rutger e sentiu-se feliz por ter estado com ele.

        E nesse momento vibrou a campainha do telefone. Era Rutger convidando-a para um almoço no sábado. Ela pensou no que havia planejado fazer no dia seguinte, mas não se lembrou de nada que a impedisse de aceitar o convite.

         “Aloô! Você ainda está aí?

         “Oi! Sim claro! Podemos almoçar sim e, onde?

         “Pode ser uma surpresa?

         “Pode, se for uma boa surpresa!

         “Você vai gostar. Eu passo em sua casa às onze e meia. Ok?

         “Está ótimo!

        O restaurante ficava na cobertura de um hotel. Antes do almoço, era obrigatório um aperitivo no amplo terraço descoberto com vista magnífica de boa parte da cidade.

       Pararam no vigésimo sétimo andar, quando ele a convidou conhecer seu quarto antes do almoço. Era a suíte presidencial do hotel, decorada com muito bom gosto. Tinha uma pequena biblioteca,  uma ampla sala de jantar, um  lavabo de visitas e o quarto exageradamente grande.

        “Rut! Isso é um golpe? Perguntou ela, muito séria.

        “Por que seria? Respondeu ele, com um meio sorriso.

        “Fui convidada para almoçar!

      “Sim claro. Podemos almoçar aqui ou lá em cima, se você quiser. Não vejo nenhum inconveniente conversarmos aqui e tomarmos alguma coisa. a não ser que você pense diferente. E depois, você superou  minhas expectativas. Você está linda, deslumbrante. Meu Deus! Como não vi você antes?

         “Antes do que?

        “Eu volto para a França no próximo mês. Já estou aqui há pouco mais de dois anos. Gostaria de ficar mais um ano, mas não me permitiram.  Provavelmente, depois de uma temporada na  Europa, vou para  os Estados Unidos.

         “E esse tempo todo, você sempre morou aqui?

        “Não! Eu morava até a semana passada em um flat, bem mais modesto e muito mais barato. Já mandei minhas coisas pra França e estou aqui apenas por uma semana com duas pequenas malas.

        “Que pena! Eu estava começando a gostar de você.

        “Meu Deus! Como você é bonita!

       “Você já disse isso!

       “Posso repetir isso até o fim da minha vida.

       “E eu  estarei velha  e feia.

       “Só há uma forma de confirmarmos isso, envelhecendo juntos.

       “Envelhecer é muito triste. Respondeu ela, pensando em sua mãe.

      “Não, se estivermos juntos. Vai ser muito, muito bom.

      “Você disse que tomaríamos alguma coisa!?

      “Ah! Sim! Claro!

       Rutger abriu a garrafa de vinho que estava no climatizador,  deitou  o conteúdo no decanter, preparou duas taças e solicitou à copa enviar o couvert do almoço que ele sabia ser apropriado para acompanhar o vinho. Ele encaixou seu iPod ano aparelho de som e uma música de fundo tomou conta do ambiente. A iluminação natural, amenizada pelas cortinas deixou o ambiente acolhedor. Não demorou muito e o mensageiro entrou com o pedido.

        Rutger serviu as duas taças, passou uma para Izabela, e brindaram.

       “À sua saúde. . . princesa!

       “À nossa. Respondeu ela.

      “Gostei desse tempo que passei aqui. Fiz amizades interessantes.

      “Muitas namoradas?

     “Para dizer a verdade, poucas e rápidas. Muitas amigas sim. Mas não passaram disso. Acredito que, por ser estrangeiro, elas evitaram compromissos mais sérios, sabendo que um dia eu deveria retornar à Europa, ou a qualquer outra parte do mundo. Acho que foi isso.

      “Seus pais moram na França?

    “Moraram lá uns vinte anos, mas já voltaram para a Holanda. Não gostaram de Estrasburgo, um encanto de cidade. Uma das cidades mais bonitas que conheci. Ele dava aulas  na Universidade e minha mãe sentia muita falta de suas tulipas, de sua casa nos campos de Keukenhof, de seus parentes na verdade. Estão lá agora, felizes da vida.  Meu pai continua a lecionar, com sotaque, o que é engraçado.

      “Seus irmãos moram com eles?

    “Meu irmão gêmeo caiu de um penhasco, há uns dez anos, em uma estação de esqui. Isso me abalou muito.  Hoje é apenas um sonho ruim. Mas já passou. Minha temporada por aqui foi muito agradável. E o tempo fez seu papel terapêutico. Estou curado. Mas, vamos falar de você.

     “Bem...eu tive um namorado em Paris, que também teve um fim trágico. Eu não gostaria de  falar sobre isso.

     “Então, depois dessa tragédia, o que você tem feito de bom?

     “Trabalhando, trabalhando, trabalhando  e cuidando  de minha mãe.

     “Izabela, se você tem que cuidar de sua mãe, é porque o tempo dela já passou. E o seu ainda não, mas também passa. Como uma moça linda como você continua sozinha?

    “Não deu tempo. E depois, meu chefe dizia ser difícil encontrar alguém que estivesse à minha altura. Acho que acreditei nisso, e, eu tinha uma queda por ele.

     “Não acredito. Quantos anos ele tinha, ou tem?

     “Mais de sessenta!

    “Meu Deus! E eu só tenho trinta e sete! E estava acreditando que pudesse ter alguma chance.

      “Talvez tenha. Você se parece com ele. Pelo menos na maneira de falar, de agir. Fala mansa, gostosa de ouvir, mesmo quando fala francês.

       A música que tocava era um convite para dançar, e ele se levantou, curvou-se sobre ela e a convidou para dançar, o que foi muito bom após o vinho.

     “Você gostaria de dançar comigo, apesar de a pista estar cheia? Brincou ele. Aumentando o som da música.

        Dançaram. E muitas coisas de sua infância brotaram em  sua mente enquanto davam voltas. Como suas aulas de balé na academia Stagiun até os oito anos. Suas aulas de equitação com aquele casquete horroroso  de sua mãe que adorava cavalos. As aulas de natação quando ganhou seu primeiro beijo do namoradinho desengonçado feito um frangote molhado. O professor do colégio, lindo como só ele, esnobando a meninada que suspirava quando ele passava. A formatura do colegial, quando sua paixão juvenil a convidou para um passeio de carro para comemorar a formatura e ao mesmo tempo se despedirem, quando ela estava de malas prontas para sua temporada na Europa. O carro quebrou e eles tiveram que voltar para casa, a pé, por mais de dois quilômetros, tremendo  sob uma fria garoa.

        Um sobressalto a fez lembrar ser mulher e que existiam outras coisas além de trabalhar e cuidar da mãe, e percebeu o quanto precisava do contato com um corpo forte de homem como ele. E ela o apertou contra seu corpo quente despertando um desejo há muito adormecido.

         Ele sentiu o calor e o perfume emanados do corpo de Izabela, e respondeu à sua iniciativa, apertando-a, sentindo um estremecimento que há muito não experimentava por uma mulher. E como que flutuando em direção ao felpudo tapete, deram vazão àquele desejo reprimido há tanto tempo, ao som da música que parecia ter aumentado para acompanhar a vibração daqueles corações, sublimando aquele momento, que talvez viesse a ser o último para eles.

        Permaneceram por algum tempo, abraçados, sentindo a maravilhosa sensação do que acabava de acontecer, quando ele percebeu suas lágrimas, beijou suavemente cada um daqueles olhos brilhantes como esmeraldas, e, depois, sua boca maravilhosa, apaixonadamente, não como uma despedida, mas como o prenúncio de um futuro a ser decifrado.

           Na quinta-feira seguinte, Rutger ligou convidando-a para um jantar com os colegas da empresa.

       Princesa! Amanhã, eu e alguns colegas jantaremos no Coliseu. Uma espécie de despedida. Eu gostaria muito que você fosse comigo. Convidou ele.

          Antes que você responda, eu não aceitarei, em nenhuma hipótese, um não. Não poderei voltar para casa, sem antes ter mais um momento com você. Tenho uma coisa muito importante para conversar. Posso passar em sua casa às oito?

         “Não Rutge!

         Silêncio.  Ela podia ouvir sua respiração, do outro lado da linha, e sentiu uma profunda tristeza, não pela sua resposta, mas pelo fato de que seria um jantar de despedida. Não seria um encontro dos mais felizes.

        “Tudo bem Princesa.      Novo silêncio, como a retomar a respiração e conseguir falar  alguma coisa. . . embarco às treze horas do domingo, poderemos nos ver amanhã?

        “Não Rutger.

        “É uma pena! Eu sinto muito.

       “Rut! Eu vou jantar com você.  Estou tentando dizer que não  estarei em casa amanhã às oito.  Estarei  na empresa. Você poderia  me pegar lá?

      “Princesa! Você quase me mata do coração. Preciso de um copo dágua com açúcar urgente. Brincou ele.

        “Passe lá às oito? Eu estarei ao lado da banca de jornal. Beijos!

        Ela estava mais bonita do que nunca.

       “Como você consegue ser tão bonita, após um dia inteiro de trabalho?

       “Hoje é sexta, Rutger.

        Ele permaneceu um tempo olhando para ela ao seu lado.

      “Meu Deus! Como pude perder tanto tempo e não te convidar para um encontro? Não que não tivesse tido vontade. Mas você me parecia muito distante, no começo.

       “Bem, você estava em outro grupo e só veio para o meu no último mês.

       “É que você me parecia alguém distante, difícil. Muita areia pro meu carrinho de mão.

      O pouco que  me contou, na semana passado, me revelou que além de  bonita, você é um anjo, alguém muito especial. Não posso te deixar  aqui. Tenho que levar você comigo.

      “Tenho um emprego, uma casa para cuidar e uma mãe que precisa muito de mim por perto. Não vai ser fácil.

      O restaurante escolhido, além da ótima localização, era aconchegante. Bem decorado, com bom espaço entre as mesas e do lado das janelas ficavam as mesas redondas, para grupos maiores, acolhendo confortavelmente até doze pessoas. Éramos  cinco casais e  ficamos em uma delas, com um apoio giratório no centro, onde foram servidos os pratos, com acesso fácil a todos. Quatro rapazes e uma loira aguada, de rara beleza, fazia parte de sua equipe. Ficamos lá, das oito e meia até próximo da meia noite. Foi um jantar memorável. Não imaginava que sua equipe fosse composta de pessoas tão especiais e viajadas. Um deles, um suíço que está há pouco tempo no país, falando  com  sotaque de Portugal, ocuparia o lugar de Rutger.

       Quando saímos do encontro, Rutger perguntou-me sobre minha agenda para o sábado.

       “Vou visitar minha mãe,     mas,    posso visitá-la no domingo de manhã.

       “Gostaria de passar o sábado comigo?

       “Passa em casa amanhã cedo.

       “Não! Eu gostaria que você fosse comigo agora pro hotel!?

       “Está bem.

      Após deixar o carro com o manobrista, subiram para a cobertura para um último aperitivo da noite. O céu sem nuvens e estrelado proporcionou-lhes uma visão bonita da cidade. Com certeza essa noite ficaria para sempre em suas memórias.

    A suíte estava encantadoramente decorada com vasos de rosas vermelhas espalhados pelo apartamento. Sentaram os dois no tapete branco e macio e colocaram suas taças de vinho na grande mesa de centro.

     Encostados na mesa, podiam ver o brilho da cidade lá embaixo, através do janelão à sua frente. A penumbra da sala,  a música orquestral,  o perfume exalando das flores e a vista deslumbrante tornou mágico e inesquecível aquele momento.

     Depois de algum tempo, sem nenhuma vontade de sair do lado  de Rutger, ela se levantou e se dirigiu ao quarto e reapareceu à porta, completamente nua.   A pouca luz do quarto e da sala, contornou a silhueta daquele corpo escultural, emoldurado pelo batente da porta,   provocou nele a sensação de estar sonhando acordado. Teve vontade de fotografá-la, mas preferiu gravar em sua memória aquela magnífica imagem e não quebrar a magia daquele momento único em sua vida. Ficou ali, como que enfeitiçado, paralisado, mudo até que ela, como que flutuando pelo tapete, foi até ele e estendeu-lhe a mão com suavidade. Ele se levantou pegou-a em seu colo,  apertou-a fortemente contra seu peito e a levou de volta ao quarto.

          Agora, também sem roupa, apanhou uma rosa vermelha e acariciou o corpo de Izabela, que mantinha os olhos fechados, subindo até seu rosto, contornando seus maravilhosos seios e descendo até a ponta de seus pés, lentamente, sentindo a vigorosa ereção doer-lhe pela angustiante  necessidade de segurar o ímpeto de se jogar em cima daquele monumento e sorver o néctar daquele triângulo, bebida exclusiva dos deuses do Olimpo, para eternizar aquele momento.

         Ela também se contorcia de desejo e ansiava por sentir em seu interior a quente masculinidade de Rutger,  sensação que ficaria gravado para sempre  em suas memórias.

       A manhã do sábado estava encantadora e na mesa da sala de jantar um completo café da manhã sobre toalha de linho branca e florais do mesmo tecido e um bojudo vaso de cristal com as rosas vermelhas da véspera enfeitando o centro da mesa.

         Antes do café, eles tomaram um relaxante e demorado banho de espuma na jacuzzi e conversaram.

         “Izabela! Tenho que confessar ter mentido pra você.

        “Como mentiu?

        “Eu não estou indo embora.

       “Então foi tudo uma farsa pra ficar comigo?

      “Teria sido um golpe de mestre, mas não foi. Na  verdade  estou deixando o cargo para o Philippy, volto pra França amanhã, para elaborar um plano de centralização das operações de outros países  aqui. Isso deve me tomar de quatro a cinco meses. Em seguida retorno para  mudar as operações do grupo para um prédio maior e mais bem localizado.

       “Fico muito feliz com a notícia. Apesar de um tempo longe.

       “Vamos tomar nosso lanche. Tenho uma pergunta muito importante.

       Izabela vestiu um roupão branco de Rutger, foi até o quarto e vestiu a única camisa de linho encontrada no armário, provavelmente aquela que Rutger havia deixado para a viagem. Deixou o roupão sobre a cama e saiu do quarto usando a camisa e só calcinha  por baixo.

        A combinação da camisa branca com a pele morena de Izabela, seus olhos verdes e seus cabelos negros compôs a imagem mais sexy que ele já tinha visto e não resistiu e a fotografou de todos os ângulos possíveis e sob variada intensidade de luz, como se ela fosse  modelo. Após alguns selfies foram para a sala de jantar.

          À mesa do café ele abriu uma caixinha onde estava um anel de brilhante. Um solitário magnífico.

         “A gente se conhece há pouco tempo, eu sei. Mas não tenho a menor dúvida do que eu quero.   Você aceita se casar comigo!?  E estendeu-lhe o anel.

         “Posso te responder quando você voltar?  se é que vai voltar!?

       “Você não está segura, eu entendo. É muito pouco tempo. Espero não ter sido impulsivo a ponto de te deixar constrangida.

           “Não estou constrangida. É que está acontecendo tudo muito rápido. E, cinco ou seis meses é tempo razoável para acontecer muita coisa na França e você estaria amarrado a um compromisso aqui. Você não precisa passar por isso. Na volta a gente retoma e vê o que acontece.

          “Izabela, aceite este anel como demonstração de minhas intenções com você. Você tem razão quanto ao tempo e quanto a imprevisibilidade. Caso aconteça alguma coisa que nos separe, pelo menos ficarei feliz de ter deixado alguma coisa minha com você. Isso significa muito pra mim. Ficaria muito feliz se você o aceitasse. . . S'il vous plaît!?

           “Aceito Rut. Mas, o mais  importante  é você voltar. E sem rabicho.

           “O que quer dizer rabicho?

           “Sem ninguém. Voltar pra mim.

          “E se eu voltar e você estiver com um rabicho?

         “Não!   Estarei sozinha, esperando por você.

         “Então, ao por esse anel em seu dedo eu nos declaro “grooms pour toujours”.

       Rutger beijou sua mão, e seus lábios demoradamente, enfiando as mãos por baixo da camisa, sentindo a pele quente e macia de suas costas. E pensou nas torturantes e frias noites de Paris que passaria longe dela durante intermináveis seis meses.

        “Então, fique comigo hoje. Passe a noite aqui?

       “Está bem. Mas eu preciso passar em casa para trocar de roupa e pegar algumas coisas.

       “A gente passa lá, agora pela manhã. Está bem?

      “Está ótimo.

      “Na volta a gente almoça lá em cima para conhecer o restaurante.

      “Está bem.

      O dia estava bonito com céu claro e azul. No caminho Rutger perguntou a Izabela sobre suas férias na empresa.

        “Izabela, quando você tira férias?

      “Costumo tirar em Junho ou Agosto, deixando  o mês de Julho para quem precisa. Aqueles que estudam.

         “Maravilha! Você não poderia ter me dado melhor notícia.

        “É mesmo?

       “Agosto, estarei no meio dos meus planos de trabalho e você passará suas férias comigo em Paris. Vou te mostrar a cidade mais luminosa do mundo.

      “Paris, eu conheço bem. Falou isso sem entusiasmo, lembrando-se de seu pesadelo. Não queria ver Paris nunca mais.

          Como que tivesse lido seus pensamentos. Respondeu.

      “A gente não vai ficar no centro, nada de torre Eiffel. Ficaremos em meu apartamento em Montrouge, a sudoeste da cidade, a trinta minutos  do centro, de metrô. Você vai por minha conta não vai gastar um centavo.

          “Podemos conversar sobre isso quando chegar mais perto.

          Nas férias Izabela costumava tirar sua mãe da casa de repouso e passar com ela em sua casa. Conversavam sobre o passado, fazia seus pratos prediletos, trazia-lhe chocolates e balas de leite que ela adorava, compradas na Kopenhagen. Fazia longos passeios de carro  para almoços  fora da cidade.

           Dado o avançado estágio de sua demência, os médicos da casa de repouso, há dois anos não recomendavam sua saída. Ela já dependia das cuidadoras para as atividades mais simples, mesmo as mais íntimas. E sua percepção da realidade estava restrito a movimentos dos lábios que pareciam sorrisos que Izabela não conseguia saber se sua mãe tinha ouvido ou entendido alguma coisa. Um mês longe não seria um problema tão sério. E sabia que precisava de umas férias diferentes das que tirara até então. E o convite de Rutger era  atraente. Difícil  recusar.

         “Izabela, eu também saio de férias e poderia tirar as minhas em Agosto e passar uma mês com você, mas isso vai atrasar meu retorno em um mês ou mais, ou mesmo a possibilidade de me substituírem por outra pessoa e estragar tudo. Gostaria de viajar amanhã com a certeza de que você vai passar um mês comigo. Será uma forma de amenizar a falta que sentirei de você reduzindo os meses que ficaremos longe. Responda sim, s'il vous plaît!

        “Está bem. Eu prometo pensar!

        “Izabela! Não quero que você pense. Quero que responda sim!

       “Está bem, sim!

      “Sim o que Izabela?

      “Sim, eu vou.

      “Maravilha!    Ma ra vi lha! Amo você!

      O Airbus decolou às quatorze horas em ponto daquele domingo triste, levando em seu interior os sonhos e as esperanças de Rutger de rever Izabela o mais breve possível, mas os dois meses que tinha pela frente seriam uma eternidade.

       O avião de Rutger, vôo BRL 2 548, na segunda-feira, jamais tocou o solo do aeroporto de Orly.

       Os pais de Rutger, voaram para Paris uma semana antes para prepararem o apartamento pra a chegada do filho, que não viam há mais de dois anos. Estavam no aeroporto há  uma hora e meia e ainda não tinham conseguido informações sobre o voo. Rutger havia mandado notícias aos pais sobre Izabela, para que, no caso de necessidade, entrassem em contato com ela pelo Whatsapp. Seus pais estavam aflitos na tentativa de conseguir informações e enviá-las a Izabela.

         Izabela sabia que o pouso do avião de Rutger estava previsto para as nove e meia e já eram quase onze horas não havia recebido nenhuma informação até aquele momento. Quando ouviu o sinal de recebimento de mensagem em seu celular.

Izabelle. nous regrettons de vous informer que la fuite du Rutger ne pas descendre à Orly par blizzard. Il a été détourné à Londres en Angleterre, où devrait venir en Eurostar. Son arrivée à Paris est prévue pour 12 heures. Nous croyons que, en recevant ce message, il a peut-être parlé.

Izabelle. lamentamos informar que o voo do Rutger não desceu em Orly, fechado  por motivo de nevasca. Foi desviado para Londres de onde virá pelo Eurostar. Sua chegada a Paris está prevista para 12 horas em ponto. Acreditamos que ao receber essa mensagem ele já deve ter falado com você.

          “Graças a Deus!

          “Izabela! Você está rindo sozinha? o que é raro!.

          “Ana! Estou feliz! Muito feliz!   Estou apaixonada.

          “Fico feliz por você Izabela. Gostei do anel. É lindo.

                                           Fim

7 Responses

  1. Gostei do conto!
    • Luiz Fernando Bono Milan
      Luiz, Muito obrigado.
      • Obrigado leitor Luiz. Seus comentários são importantes para que possamos melhorar a cada conto.
  2. Senti uma alívio e fiquei contente com o final, mas novamente fiquei com gosto de quero mais... continua a história!
    • Prezada Leitora, obrigado pelo seu comentário. o conto é parte de um romance em construção. continue com seus comentários pela importância que eles representam.
  3. Gostei. Bem dosado, romance e um pouco de suspense no final. Muito bom. Parabéns.
    • Obrigado Nilson pelo seu comentário. O conto passa por revisão diariamente e você poderá notar mudanças no conteúdo. Você também pode apresentar suas sugestões para determinadas partes do conto reescrevendo-o em parte ou no todo que passarão por moderação e apresentado como seu trabalho no vamos escrever juntos.

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