O Baile – cont.

O pai

             Nós chegamos pelo menos meia hora antes do começo do baile. Sempre fazíamos isso para evitar expor minha filha a embaraços. Tinha a impressão que éramos o foco da maldade alheia. O salão estava bem decorado, com motivos florais e a iluminação suave  era reduzida quando a música era lenta e romântica.

          Minha filha era linda.  Seu corpo bonito marcava o vestido bem cortado com uma sensualidade de chamar a atenção dos rapazes, pelo menos até perceber que ela tinha uma perna mais curta do que a outra.  Uma certa tristeza ainda aflorava em mim embora já um pouco esmaecida pelo tempo  mas, às vezes, nessas ocasiões mais solenes, sentia um  aperto no coração. Qualquer música  romântica fazia com que eu me esforçasse para segurar  minha emoção.

          O rapaz não apareceu.

          E ninguém a tirou para dançar.

          Já passava das duas horas e começava a sentir sono e cansaço.

       Quando ameacei convidá-los a ir para casa, um rapaz se dirigiu à mesa da minha filha e a tirou para dançar no início de uma seleção de músicas lentas. Senti um aperto no peito e meu coração bateu forte. Tirei minha mulher para dançar  o que fez com que me acalmasse  e percebi que eles dançaram pelo menos duas músicas, quando o rapaz a levou para a mesa e desapareceu deixando-a sozinha.

           Percebi que ela empalideceu e baixou a cabeça. Ela ficou profundamente triste, pois se tratava de um rapaz bonito, alto, bem vestido e que chamava a atenção das mocinhas no baile. Pude observar alguns olhares e risinhos disfarçados. Ou talvez  estivesse imaginando coisas e não fosse de fato nada disso. Procurei me acalmar, esperar o término da seleção deixar o clube quando se iniciasse a próxima, que quase sempre era mais agitada.

Ela

           Senti-me como se o mundo tivesse desabado sobre minha cabeça! Tive a impressão de que todos estavam olhando para mim. Não sabia para onde olhar. Minha mãe ensinou-me certa vez que, quando me encontrasse nessa situação, fechasse os olhos e pensasse em um jardim florido, bonito, ensolarado e brincando com meu cachorro e com minhas amigas. Fiz isso, mas não deixei de sentir uma lágrima fria descer pela minha face como um fio de navalha a riscar minha pele.

            Minhas amigas estavam dançando e fiquei sozinha em nossa mesa ao lado da dos meus pais. Aqueles dez minutos pareceram-me uma angustiante eternidade, quando alguém puxou uma cadeira e pediu-me licença para sentar.

           Era ele, sorridente e com duas taças de coquetel de frutas com os inevitáveis guarda-chuvinhas. Seu olhos negros, penetrantes, desarmaram-me completamente. Não consegui responder. Assenti meneando a cabeça. O coquetel de vinho adocicado, deixou-me mais leve e um calorzinho bom tomou conta de mim. Dançamos mais um pouco, quando ele me beijou nos lábios e murmurou jamais ter visto uma menina tão bonita.

Ele

          A última música da seleção foi uma das que mais gosto. Dançamos bem apertadinhos. Sentia o movimento de suas costas com a mão o que fez meu coração bater mais forte. Seu delicado perfume, seus cabelos volumosos me fizeram pensar que ali estava a menina com quem certamente me casaria.

          Terminada a música, num ímpeto de infantilidade e desprendimento, a tomei no colo, a apertei forte contra meu peito e a levei até a mesa deixando-a na cadeira. Todos olharam a cena incrédulos pela minha ousadia, e um silêncio estarrecedor pairou no ambiente até chegarmos à mesa, quando todos se levantaram e aplaudiram efusivamente.

          Aquilo me deu imensa alegria  e a beijei de novo e perguntei:

  Posso te acompanhar até sua casa? Quero ficar mais um pouco com você.

Ela

           Saímos, ele abriu a porta do carro, esperou que eu me sentasse, deu a volta, sentou-se ao meu lado, beijou-me com uma intensidade que eu até então desconhecia.

          Do clube até minha casa não levaríamos mais que quinze minutos de carro, mas ele fez de tudo para ficar mais tempo comigo. Demoramos um pouco mais e meu pai já nos esperava na calçada, com certa ansiedade.

          Ele desceu do carro, abriu a minha porta, coisa já um tanto em desuso, levou-me até o portão, abraçou-me e me beijou novamente,  na frente de meu pai e disse:

       Vou me casar com sua filha!

            Sorriu, despediu-se, virou as costas e foi embora.

           Meu pai acolheu-me em seus braços e levou-me para dentro de casa. Eu tremia um pouco é verdade, mas foi uma noite maravilhosa que eu jamais vou esquecer.

4 Responses

  1. Gostei mto do conto, mas acho que podia ser maior, ter a continuação....
  2. Belo conto. Um romance leve, com um pouco de emoção pela situação física da moça. O final, sugere uma segunda parte, porque não?! Afinal eles se casaram ou não?!

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