O Baile

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Não era uma cidade pequena.

Sua população passava de cento e vinte mil habitantes e era bem cuidada, limpa, com calçadas largas, casas bonitas, o centro bem planejado com amplas avenidas e uma gente jovem vinda de vários pontos do país em busca de formação na sede da universidade do estado.

Mais parecia  um imenso bosque, fincada no coração do estado. A cidade é acolhedora com temperatura amena o ano inteiro.

O campo representa a fonte de onde se extraia boa parte da riqueza do município cujo principal produto são os laranjais. Tem grandes fazendas é verdade, mas boa parte da produção vem de pequenas propriedades.

A indústria, em sua maioria, existe em função das demandas do campo, como máquinas e equipamentos para plantio e colheita mecanizada, elevando a produção a índices consideráveis. Tudo funciona bem na cidade, escolas, atendimento médico, transporte,  segurança e muitos outros serviços. Parece até que a cidade havia chegado ao tamanho ideal. Não precisava ser maior nem menor do que era. Havia encontrado seu ponto de equilíbrio. A cidade sempre foi administrada por gente formada em administração de empresas e a maioria tinha pós graduação em administração pública em boas escolas.

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Era uma tarde preguiçosa de domingo. O sol brilhava sem muita convicção naquele finalzinho de inverno.

O baile, como sempre acontecia, estava sendo esperado com ansiedade pelas jovens da cidade que era realizado todos os anos no clube de campo, muito próximo da cidade e seria animado por uma banda da capital e um DJ bastante conhecido.

Antes disso, as meninas encomendaram  às costureiras seus vestidos para o baile. A criançada estava toda excitada com a expectativa da noite e não falavam sobre outra coisa. Sempre havia grupinhos, nas lanchonetes, discutindo como seriam suas roupas e o mais importante, com quem gostariam ser tiradas para dançar.

      "Pai! Perguntei, disfarçando a ansiedade: O baile da primavera é na sexta da próxima semana. Nós já temos uma mesa reservada? Lembra que no ano passado ficamos em uma mesa próxima da porta e passamos frio?

Minha casa era nova, confortável e ficava em um bairro elegante não muito longe do centro, onde vivíamos meu pai, minha mãe, meu irmão mais novo e eu. Meu pai trabalhava em uma grande indústria processadora de suco de laranjas na cidade para consumo interno e exportação. Ele não era de rir muito, mas era especial e carinhoso. Às vezes nos levava a um  lago onde podíamos pescar e também ver os jacarés tomando sol enquanto almoçávamos. Era muito bom.

     "Ainda não! Respondeu ele.  Amanhã  passo lá à tarde e faço a reserva de uma mesa bem legal sim. Você vai gostar! Mas, por que você está perguntando isso agora?

Quando nasci, meus pais foram informados pelos médicos que eu era um bebê com a perninha esquerda mais curta do que a outra. O médico sugeriu aos meus pais acompanhar meu crescimento, para evitar anomalia no futuro e ir corrigindo ao longo do tempo com medicação, fisioterapia, evitando o alongamento cirúrgico e doloroso.

Não era muita coisa, mas o suficiente para dificultar-me andar. Tenho vinte e três anos e tive uma dolorosa adolescência. Meus pais fizeram de tudo para amenizar o problema com palmilhas, sapatos diferenciados, um sem número de paliativos. Mas na hora da educação física não havia como passar desapercebida. Era motivo de bullyng  na escola, como se diz hoje. Poucas eram as atividades que poderia praticar e sempre tinha alguém com gracinhas as mais desagradáveis. Muitas vezes ia mais cedo para o vestiário e não conseguia segurar o soluço e chorava enquanto tomava banho. Mesmo as meninas, que eu considerava minhas amigas, sempre tinham piadinhas sem graça.

Às vezes  penso ter superado esse problema, mas não. Ele está latente e em situações especiais ele aflora e me perturba. Quando era mais nova, antes de dormir, pedia a Deus que ao acordar, minhas pernas estivessem iguais. Nos sonhos eu era uma menina feliz, perfeita. Não tinha nenhum problema com minhas pernas. Então, às vezes, eu chorava baixinho antes de me levantar ao perceber que minhas preces não haviam sido atendidas.

Quando minha mãe percebia, me consolava, dizendo que tinha gente com problemas maiores que os meus. Pessoas  que não tinham as duas pernas. Isso não ajudava muito.

Hoje, formada em psicologia, dou aula em dois colégios e sempre percebo olhares curiosos para os meus pés nos primeiros dias das aulas que desaparecem ao longo do ano.

   " Você ficaria triste se eu ficasse em uma mesa reservada para mim ao lado da sua?

   "Hum ! Por que? Você não pode ficar em nossa mesa?

   "Gostaria de ficar com minhas amigas e . . .

   "Sim ?

   "Conheci um rapaz da escola e eu o convidei para sentar com a gente! Respondeu ela com um brilho nos olhos.

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