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Contos criados de forma colaborativa

 A Terra Prometida

                          1

           O barulho era ensurdecedor no Mono Bar de Moscou. Vadim tentava falar com seu ex-professor de astronomia, Nikolai, pesquisador da agência Roscosmos.

          – Professor! Tenho um assunto importante pra falar com o senhor – gritou Vadim.

          – Como!?

          – Eu tenho um assunto para discutir com o senhor!

          – Mas! Tem que ser agora!?

          – Sim!

          – Nem pensar! Falo com você amanhã, quando acordar.

          – Você não quer discutir um assunto importante de ciência comigo agora!?

        Não! Amanhã cedo, ou no próximo ano, quem sabe?

       Vadim, voltou para casa decepcionado – como um cientista se recusava trocar ideia com ele só por que estava em uma balada!? Vadim passou a noite virando-se na cama sem conseguir dormir. Precisava falar com com Nikolai, urgente. Era muito importante.

    Não havia clareado o dia quando Vadim bateu na porta do Nik,  que estava esparramado no chão de seu quarto. Não conseguiu chegar até a cama de tão bêbado. Não havia como acordá-lo naquele estado. Nem mesmo uma bomba atômica o acordaria, o que fez com que Vadim, voltasse para casa, tomasse um banho, um bom café e dar um tempo para que Nik, no domingo, voltasse ao mundo dos vivos, o que não aconteceria antes das duas da tarde, o mais certo seria  . . .  depois das três. Paciência.

      Nikolai levantou-se depois das quatro. Estava com a cabeça a ponto de explodir. Tomou uma xícara cheia de djomba (джомба) e voltou para a cama, sem condições de pensar em nada.

       Às oito da manhã da segunda-feira já estava na Roscosmos, quando foi informado de que Vadim estava na recepção e precisava falar com ele com urgência.

     O que esse cara quer comigo – pensou Nikolai.

     Vadim havia tentado uma vaga na agência por três vezes, e por três vezes foi recusado. Seu pai, bilionário, do ramo de petróleo, financiou a instalação de um poderoso telescópio na parte mais alta de sua dacha. Desde então, Vadim passou a vasculhar o cosmos boa parte de suas noites, aperfeiçoando seus conhecimentos de cosmologia adquirido nos cinco anos em que estudou no IGC – Institute of Gravitation e Cosmology of Moscou.

       A Agência só admitia, para seus quadros, pesquisadores com PH.D, ou seja, com mais de três anos de pesquisas após a graduação e tese aprovada com louvor pela banca examinadora composta por pesquisadores consagrados, o que não era o seu caso, pois ainda não havia submetido o resultado de suas pesquisas à banca.

      Depois de esperar por mais de uma hora, Vadim desistiu de falar com Nikolai e voltou para seus cálculos.

      Por mais que os refizesse, o resultado era sempre o mesmo:

                            N31º46’78693 e E35º12’57658, 25.12.2025, 15horas.

      Era chegado o momento de, não mais procurar a ciência, mas a autoridade da Igreja Ortodoxa de Moscou (Русская Православная Церковь), que, com sua história hagiográfica nunca reconheceu a infalibilidade papal.

      O Patriarca Dimitri Ivanoff o recebeu, em seu gabinete dourado, pois tinha imensa dívida de gratidão para com seu pai, Ivannildo, grande colaborador de sua paróquia.

       – O que o traz aqui, meu filho?

      – Padre, além de enfiar o pé na jaca dos pecados mundanos, tenho me dedicado ao estudo do cosmos. Tenho em casa um observatório para minhas pesquisas e um computador com capacidade  considerável  para me ajudar nas respostas que preciso.

      – Pois não meu filho! Alguma descoberta que o preocupa?

    – Eu tenho acompanhado a rota de um meteoro, maior que o Hobá West, de cinquenta e nove toneladas. Pelos meu cálculos ele atingirá a terra no dia vinte e cinco de dezembro do ano de dois mil e vinte e cinco, às quinze horas. O choque de oitenta toneladas a uma velocidade de mais de trinta mil quilômetros por hora se dará em Jerusalém, mais precisamente em Gólgota, arrasando o estado de Israel. Seu poder de destruição é semelhante a de um artefato nuclear de potência semelhante à  que caiu sobre  Hiroshima.

      – Você já comunicou, ou discutiu suas descobertas com alguém da Roscosmos?

     – Eu tentei padre, mas não fui recebido. Acho que uma indicação sua poderia ajudar.

      – Não acredito Vadim. Lá é uma casa das ciências. Qualquer manifestação nossa parecerá algo ligado à nossa fé. E não seria bem recebida. Mas, acredito que se você tentar uma entrevista com o secretário da ciência e tecnologia de Moscou ele deverá recebê-lo. E eu posso dar uma ajuda nesse contato.

                         2

        A entrevista com o secretário foi marcada para quinta-feira às nove da manhã. Vadim chegou às oito e meia e só foi atendido às vinte para às dez. Mais alguns minutos e ele teria desistido. O encontro foi acompanhado por alguns assessores do secretário e por um jornalista, amigo de algum deles.

        E ninguém atentou para o fato de que, o que revelou Vadim, pudesse provocar nas pessoas, caso o assunto caísse na imprensa, talvez pelo fato de que a tragédia, se acontecesse,  se daria muito longe dali e o conceito do pesquisador, junto à comunidade científica, próximo de zero,  não  justificasse maior atenção e cuidados.  De fato, o pequeno destaque da notícia, no caderno de curiosidades do Pravda, não despertou a atenção dos leitores e não houve nenhuma comoção. Foi apenas uma preguiçosa e pequena nota de domingo pra mexer com os moscovitas da praça Vermelha naquela manhã ensolarada e fria.

       Na embaixada da Inglaterra, entretanto, foi diferente e a notícia foi transmitida à BBC de Londres que a revelou ao mundo e deixou a classe científica em polvorosa.

      A Nasa, emitiu nota, orientando as pessoas a permanecerem calmas, pois o tal meteoro, conhecido pela sigla KP1092, estava sendo acompanhado por seus pesquisadores e nada indicava que ele viria a se chocar com a Terra, pois passaria, de fato, por volta da data indicada, mas,  a uma distância de mais de oitocentos mil quilômetros do nosso planeta que, em termos galáticos, passaria raspando. A Agência Roscosmos emitiu nota semelhante.

       A credibilidade de Vadim que não era lá essas coisas e foi completamente desprezada até por seu pai, que quase o deserdou por sua ousadia, que por pouco não mandou destruir o centro de estudos montado para seu filho que só não o fez por insistência de sua mulher que adorava Vadim e lhe dava a maior força. Passou dias a consolá-lo e vigiando-o para evitar que ele cometesse qualquer atentado contra a própria vida.

                         3

       Nikolai, morrendo de ciúmes de Vadim, por ter mexido com os cientistas de todo mundo o convidou para discutir sua tese com os pesquisadores da Agência Roscosmos, com o objetivo de destruí-lo de uma vez por todas.

       A Nasa com objetivos mais pragmáticos o convidou a ir a Nova York, sede da ONU para apresentar seus trabalhos em um encontro de cientistas de todo mundo, sendo dois deles, renomados pesquisadores da Roscosmos, um com passagem pela ISS, ficando Nikolai fora do encontro por não ter sido convidado.

       Entre um e outro, Vadim aceitou o convite da Nasa, que incluía passagens e estadia na cidade mais deslumbrante do mundo que ele ainda não tinha tido tempo de conhecer.

       Vadim ficou no Hilton Manhattan East, um deslumbrante hotel próximo da ONU, que lhe permitia ir até a sede a pé. Um diplomata, uma espécie de concierge, enviou a ele o kit para acesso à sede da ONU, composto de um crachá, um mapa do prédio, e um cartão magnético para destravar as catracas. Ele deveria comparecer à recepção com seu passaporte para coleta da digital e liberação do cartão.

       O encontro dos cientistas teve início na segunda-feira e sua apresentação, fora da agenda, foi marcada para quinta-feira, às quinze horas, franqueada a quem quisesse participar. O plenário estava completamente lotado quando ele chegou.

       Não imaginava tanta gente! – pensou ele. Teve vontade de dar meia volta e cair fora. Mas seria uma covardia sem tamanho. Teria vergonha de voltar ao seu país, e  como encarar seus pais, após estrondoso fracasso.

           Entrou timidamente, procurando não ser notado, mas não foi possível. Quando ele transpôs o umbral de acesso, todos se levantaram e o aplaudiram. Ficou paralisado sem saber o que fazer quando o cerimonialista o convidou a compor a mesa de onde seria apresentado ao mundo e em seguida, as questões sobre sua tese.

       Senhoras e senhores, apresento-lhes Vadim Lvov, astrônomo do Institute of Gravitation e Cosmology da cidade de Moscou, que apresentou, ao mundo, o resultado de seus cálculos sobre o corpo celeste também conhecido pela sigla KP 1092, nosso velho conhecido, que segundo ele, se chocará com a terra, no dia vinte e cinco de dezembro do ano de dois mil e vinte e cinco e caíra sobre a cidade de Jerusalém, em Israel.

        Agora, passarei a palavra a ele,  para que apresente os argumentos de como chegou a esse resultado, que contraria todos os cálculos até hoje realizados pelos mais renomados cientistas do mundo. Como todos resultados até hoje conhecidos pela comunidade científica confirmam que o KP1092 passará, na data calculada por ele, mas a uma distância de oitocentos mil quilômetros da terra. A pergunta que todos fazemos nesse momento é: qual evento mudaria o curso do asteroide de tal forma a colocá-lo em rota de colisão com o nosso planeta, e atingindo exatamente um ponto sobre o  estado de Israel que corre o risco de desaparecer da face da terra?

                       4

           Agradeço ao secretario geral da ONU pelo convite e pela oportunidade que me foi concedida para estar aqui hoje e apresentar aos senhores e senhoras, os resultados dos meus estudos sobre o KP1092. Como é do conhecimentos dos senhores, este asteroide alcança a posição mais próxima da terra,  o vetor de valor igual a oitocentos e setenta e cinco mil quilômetros, a cada sessenta e um anos, quatro meses, dez dias, vinte uma horas, cinquenta minutos e quinze segundos,   e   é dado pelas equações:

                     E=[D/F]²      C=ƒ.Δα/Δλ     D=.{Δβ/π√sen²ξ}       Π=4,74μ/ξ,tgq       C=∫∆α/∆λ

     Senhores, estas são partes das equações utilizadas e, não tenho nenhuma pretensão de apresentá-las completas por se tratar de assunto há muito conhecido de todos aqui.

        Pela combinação das equações C=∫∆α/∆λ e Π=4,74μ/tgq , concluo que o choque do asteroide com a terra, ocorrerá de hoje a dois milhões e seiscentos mil anos, o que não é muito preocupante, pois não sabemos se a terra sobreviverá até lá.

         O que me preocupa não é o KP1092,  mas. . . o KWΦ11132VL

        E o que seria o KWΦ11132VL. Este pequeno asteroide tem massa inferior a cinco toneladas. É desprezível. E não corremos nenhum risco com ele. Quem corre sério risco com ele é o KP1092, daí sim devemos nos preocupar com este. Por quê? – vejam:

                              D.µ=Φ∫∆α/∆λ     D={Δβ/π√sen²ξ}       Ⓥ=1/λ+Åα/[∂η         ϒ=ßδ/∂’

                             E QUANDO    ∂/∂∆θ∫√senx,    sendo   x=Σα/[∂η    então      D.µ=E[D/F]²

                             o que  leva KP1092 às seguintes coordenadas N31º46’78693 e E35º12’57658, 25.12.2025,

                           15horas.

        Após a apresentação de Vadim, não se ouviu um único ruído na plateia. Foi como se o plenário tivesse sido acometido por uma cataplexia coletiva.

      Aos poucos foram surgindo sussurros aqui e ali, e algumas pessoas, menos afeitas àquele assunto,    levantaram-se e foram embora.      Não ficaram mais que dez pessoas e todas se aproximaram de Vadim com cadernos preparados pela secretaria da ONU com dados de seus estudos e eles permaneceram na sede da Organização até próximo da meia noite, quando enfim liberaram Vadim e ele se dirigiu ao seu hotel, para descansar até às nove horas da manhã quando embarcaria no avião que o levaria de volta à Moscou.

                         5

       Vadim, começou a receber consultas do mundo inteiro, via e.mail. Queriam saber como ele havia chegado àqueles resultados.

         Nicolai, foi nomeado diretor de um instituto de pesquisa a quinhentos quilômetros de distância da sede da Agência Roscosmos e Vadim foi convidado a fazer parte do quadro de pesquisadores da Agência. Após a nomeação de Vadim, a Agência passou a ser visitada por pesquisadores de todo mundo.

        Vadim passou a coordenar um grupo de pesquisadores da Agência, com apoio da Nasa e do European Southern Observatory – ESO. A ONU patrocinou um grupo de estudos coordenado por Vadim que se instalou no ALMA, maior observatório do mundo, no Chile, durante seis meses, e o resultado dos estudos confirmavam perigosamente a tese de Vadim.

       A ONU estudava, com apoio de todas as nações do mundo, tomar providências para evitar a tragédia confirmada pelo grupo de trabalho.

      O Secretário Geral da ONU, emitiu comunicado à comunidade científica mundial, aos chefes de estado, às autoridades eclesiásticas solicitando divulgar notícias às populações com expectativa de se evitar o pânico generalizado, pois o mundo havia deflagrado iniciativas para minimizar os eventuais estragos a ser provocados pelo choque do KP1092, uma vez que os estudos confirmaram os resultados obtidos por Vadim.

        O mundo concluiu ser prudente tomar as providências mais amplas possíveis a assistir passivamente a confirmação da tese Vadim como ficou conhecida.

          Os cientistas passaram a monitorar a viagem  do KWΦ11132VL, pois acreditavam que seria impossível que  um corpo celeste, ainda que pequeno,  viajasse durante nove anos sem que sua rota, calculada pelos astrônomos,  fosse  alterada por choques com outros fragmentos vagando sem rumo pelo  espaço. Um milímetro hoje faria com que ele passasse a quilômetros de distância do KP1092 em 2025.

         Aconteceria isso? E se não acontecer!?

                        6

         O Conselho Supremo da Igreja Ortodoxa Russa sob a autoridade de Sua Santidade o Patriarca de Moscou e de Toda a Mãe Rússia proclamou que o “Tempo do Messias” já havia começado. Essa manifestação, o relatório MNE, se assentou nos estudos iniciados há cinco anos a pedido do líder religioso, o rabino de Israel que advertiu aos povos judeus de todo o mundo, em julho passado, que a chegada do Messias era iminente.

       “Quando você ouvir que os russos capturaram a cidade da Crimeia, você deve saber que os tempos do Messias já começaram, que seus passos estão sendo dados. E quando você ouvir que os russos tenham atingido a cidade de Constantinopla (Istambul de hoje), você deve colocar suas roupas de Shabat e não tirá-las, porque isso significa que o Messias está prestes a chegar a qualquer minuto.”

       Enquanto a comunidade científica se debruçava sobre a tese Vadim, a comunidade religiosa, notadamente da Rússia e de Israel, emitia sinais do fim dos tempos. Haveria uma conjugação desses dois eventos?

       Os estudos de Vadim e os do Rabino de Israel, foram iniciados quase na mesma época, e não tinham nenhuma ligação entre si. Mas as conclusões eram assombrosamente semelhantes. Um, pelas conclusões científicas e o outro, pela fé e pelos sinais dos tempos.

       Entre um e outro a ONU concluiu que era chegado o momento de um novo êxodo do povo de Israel para uma nova terra prometida. Entretanto, a promessa agora não seria de nenhuma divindade, mas dos povos do mundo, da ONU.

                                                       Fim da primeira parte.

 

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